A constante busca pelos limites do design

postado por eduardo camillo

Esse é um ponto que se bate excessivamente na mesma tecla: qual é o limite do design? Até onde ele chega? E arte e design, faz sentido contrapô-los? Mas e juntá-los? O que é certo e o que não é nisso tudo? Há o certo? Pois se não houver, salve-se quem puder!

Enfim, divagações à parte, essa é uma briga que até pouco tempo eu acreditava que não fazia muito sentido. Que tanto fazia se o que cada um acreditava era num limite claro do design ou num embassamento das fronteiras entre as disciplinas. Mas voltei a pensar nisso depois que tive ontem uma rápida conversa com um amigo.

Meu descaso com o assunto havia partido de um livro: Espécies de Espaços, de George Perec (recomendo). O livro trata de uma descrição/narração (não sei exatamente qual é o gênero daquele texto), onde ele vai falando e expondo pontos interessantes sobre diversos espaços diferentes: o espaço da cama, do quarto, da casa, do andar, do prédio, da rua, da cidade, etc… E vai meio que “desconstruindo” (eu realmente detesto essa palavra, pois ela é a modinha, o avant-garde no design, a ponto de eu ter lido faz pouco tempo num livro de design contemporâneo um texto bastante questionável sobre a (des)construção da imagem, onde de imagem pouquíssimo se falava…) nossa percepção e visão sobre essas coisas. Como, por exemplo, ao falar do quarto ele pergunta: se se muda a cama de lugar, se muda também o quarto ou ele ainda é o mesmo? Outra pergunta: porque as casas são divididas de acordo com seus usos e não de acordo com as estações do ano? E porque a gente usa tão pouco a parede para escrever, se normalmente ela é bastante lisa?

Enfim, o livro é bastante interessante, e me ajudou a pensar um pouco nesse assunto: por que criamos fronteiras entre as coisas? Trazendo para o que nos interessa, o design, por que tão insistentemente contrapô-lo à arte ou à engenharia, ou a qualquer coisa? (Aliás, na verdade estou para ver alguém tentar “diluir” a fronteira entre design e engenharia. Entre arte e design todo mundo quer, porque é bacana ser artista; agora , ser engenheiro…). Apoiei esse meu argumento sobre o seguinte ponto: há pontos ontológicos que constituem as coisas. Na metafísica, seria a essência da coisa. Um cavalo é um cavalo pela sua essência de cavalo. E as essências estão nos entes, nos seres, nas coisas que são. No entanto, não encontramos tais características tão “deterministicas” nos ambitos culturais. Se criamos o conceito e método de trabalho para a biologia, é para ela explicar determinada coisa. No entanto, não existe uma ontologia da biologia, afinal, ela não é um ser, mas apenas uma “categoria”, algo como um modo de agir e de pensar e ver o mundo. Não é paupável. E por isso mesmo ela (assim como todas as outras disciplinas do mundo) se mostra ineficiente para explicar com perfeição a vida: porque a biologia é uma interpretação, uma tradução da vida para algo entendível, sendo que a vida é ontológica, enquanto a biologia é convenção.

E, para mim, o mesmo se colocava no design. Não há como delimitar um conceito sobre algo que o homem “criou” (até porque, não sei se ele realmente criou, ou apenas aplicou um nome a algo que se mostrava claro), e que por ter criado, tanto faz se mudar ou não seu conteúdo. E, aparentemente, no design a encrenca é pior do que na biologia, pois essa ainda tenta ser uma maneira de entender e estudar, e cria estruturas para facilitar a compreensão da vida, enquanto o design é majoritariamente propositivo (mesmo que esteja junto dele o problema de análise e compreensão, não busca uma explicação simplesmente, mas uma solução a algum problema. Problema esse que, inclusive, muitas vezes advém do próprio homem).

A partir desses pontos, eu acreditava que discutir os limites do design era uma bobagem, que o que importa no final não é a classificação ou não do que fazemos, mas sim de como fazemos, e fazer bem independe de se falamos de arte ou não, de falarmos de engenharia ou não, de falarmos de design ou não. E que fazer bem era mais importante que falar sobre.

Era assim que eu pensava. Até ontem. Mas, antes de colocar aqui o que eu pensei, e como me posicionei a respeito do assunto, queria ouvir o que os leitores têm a dizer. No próximo artigo concluirei o assunto.

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Eduardo Camillo K. Ferreira
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e professor na Etec Guaracy Silveira no curso de Design de Móveis. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teoria de base do Design. Escreve também noDigerindo Arte.