


A função Poética e o Design
postado por Eduardo Camillo
Novamente, meu post acaba vencendo o prazo dos 15 dias a que me propus… E o pior é que foi por minha culpa, pois achei que seria mais fácil escrever esse post, mas acabei tendo que estudar muito mais do que pensava para escrevê-lo…
O tema é simples: enxergar relações úteis ao projeto de design no conceito de função poética proposto pelo lingüista Roman Jakobson. Penso que entender um pouco melhor isso pode ser útil ao desenvolvimento de algum projeto (vejo qualquer teoria como uma aliada à prática. Se não há possibilidade prática numa teoria, desculpe, mas é perca de tempo).
Bom, o modelo de Jakobson para as funções de linguagem é bastante conhecido, mas vou colocá-lo abaixo para aguçar nossa memória, tão falha e seletiva (ao menos a minha…):
Não acho que tenha que explicar cada uma das funções, mas posso deixar uma referência:
JAKOBSON, R. Linguística e comunicação – Ed. Cultix
CAMPOS, H. A arte no horizonte do provável – Ed. Perspectiva
Lá existem dois textos bastante claros e explicativos sobre o tema das funções de linguagem. Aqui, vou tentar focar no que se refere às suas relações com o design, em especial da função poética.
Essa teoria proposta por Jakobson é aplicável, evidentemente, em qualquer contexto onde exista comunicação, já que ela se propõe a entender as possibilidades de classificação quanto ao foco da mensagem (se ela se foca no “contato” entre o remetente e o destinatário, tem um caráter fático, de enfatizar o desejo comunicativo para gerar uma resposta do destinatário, como um “alô?” ao telefone, ou, usando um exemplo do design, com letras garrafais e cores contrastantes numa peça gráfica de cartaz).
A poética, no entanto, é uma função interessante para focarmos, pois traz especificidades que podem ser bastante úteis a nós. Vou começar colocando o modo como Jakobson entende a estrutura da poética.
“Qual é o critério lingüístico empírico da função poética? Em particular, qual é o característico indispensável, inerente a toda obra poética? Para responder a essa pergunta, devemos recordar os dois modos básicos de arranjo utilizados no comportamento verbal, seleções e combinações (…). A seleção é feita em base de equivalência, semelhança, sinonímia e antinonímia, ao passo que a combinação, a construção da seqüência, se baseia na constigüidade. A função poética projeta o princípio de equivalência do eixo da seleção sobre o eixo de combinação. A equivalência é promovida à condição de recurso constitutivo de seqüência”.
Resumindo (ou traduzindo), a função poética existe quando algo é tomado como significativamente equivalente a outra coisa alheia a ela, quando a relação natural é que existisse em algo que mantém uma relação direta (sinonímica) com ela. Em outras palavras ainda (e aqui é um ponto importante para o post), é na existência de metáforas e metonímias.
Essas duas palavras são a chave para entender o modo de pensamento que o designer deve ter para com a função poética, e o uso de uma ou outra pode variar de acordo com o tipo e momento do projeto. A metonímia acontece quando substituimos um termo por outro que se refere diretamente no contexto (a parte pelo todo, ou o conteúdo pelo continente, etc… Aqui, link para a wikipédia para aqueles que se esqueceram das aulas da 7ª e 8ª séries).
Já a metáfora se dá quando essa relação não é direta, mas compreensível por determinado caráter de similaridade entre os termos que se substituem (mais um link para a wikipédia). Caso ainda exista alguma dúvida quanto aos conceitos de metáfora e metonímia, vou colocar mais um trecho do Jakobson, que pode nos clarear um pouco mais as idéias (sobre essas duas funções de linguagem, recomendo ainda um texto do próprio Jakobson que está nesse livro, no qual ele discorre sobre a Afasia, uma doença de teor comunicativo, e que possui duas grandes variantes: uma onde o indivíduo não assimila metáforas, e outra onde ele não assimila metonímias).
“De vez que a poesia visa ao signo, ao passo que a prosa pragmática visa ao referente, estudaram-se os tropos e as figuras essencialmente como procedimentos poéticos. o princípio de similaridade domina a poesia (…). Pelo contrário, a prosa gira essencialmente em torno de relações de contiguidade. Portanto, a metáfora, para a poesia, e a metonímia, para a prosa, constituem a linha de menor resistência, o que explica que as pesquisas acerca dos tropos poéticos se orientam principalmente para a metáfora.”
Metáfora – uma comparação que (…) apresenta de forma literal uma equivalência que é apenas figurada.
Metonímia – figura retórica que consiste no emprego de uma palavra por outra que a recorda.
Wikipédia
Pois bem, acredito que podemos enxergar no design ambos os casos poéticos, mas em momentos diferentes tanto de projeto quanto de uso e vivência do objeto. A metonímia estaria no que se refere à usabilidade e cognição básica do objeto, enquanto a metáfora está na fruição secundária do mesmo. Vou me estender um pouco mais sobre cada um deles.
Já que a metonímia se constitui por uma continuidade de idéia de um conceito a outro, enxergamos isso claramente, por exemplo, no uso de ícones em dispositivos de acionamento, como o desenho de uma flecha para a esquerda simbolizando o “play”, e de duas flechas simbolizando o “fast forward”. Isso funciona melhor que colocar um “P” de Play, ou do que um “FF” de FastForward”, já que não há semelhança cognitava alguma entre as palavras e as ações. É importante o uso metonímico em momentos onde a rapidez e a clareza são importantes, e por isso o associei diretamente à usabilidade. Haver uma coerência direta entre o símbolo usado e sua função no todo é fundamental para um bom desempenho do objeto. É interessante aqui colocar mais um pequeno trecho de Jakobson.
“Na linguagem normal, a palavra é ao mesmo tempo parte integrante de um contexto superior, a frase, e por si mesma um contexto de contituintes menores, os morfemas (unidades mínimas dotadas de significação) e os fonemas”.
Em outro post, coloquei sob o olhar da fenomenologia a importância de se chegar a um projeto coeso no seu todo, para que o projeto tenda a ser um momento, e não apenas um objeto feito de partes (link para esse post). A metonímia faz parte desse processo, já que se constitui de uma unidade do projeto (que poderiamos entender como o morfema de Jakobson), mas que procura construir-se numa unidade de sentido com o todo.
A metáfora, por outro lado, constitui na parte que permite algum tipo de ambiguidade no projeto. Um patern, ou mesmo um logo (esse pode caracterizar-se por ambas figuras de linguagem, tanto a metáfora quanto a metonímia), ou no caso de um objeto, uma referência biomórfica, etc., funcionam a partir da metáfora.
Esse foco aqui apresentado pode variar. Num grande banner pode ser melhor que o uso de uma boa metáfora sirva para primeiro captar a atenção do passante, e o caráter metonímico fica num segundo momento, quando se deve assimilar aquilo que se expõe a um produto, serviço, ou o que quer que seja. No entanto, é bastante claro que ambos devem existir.
Eu poderia terminar o post aqui, mas vejo que alguém poderia perguntar: “mas Edu, entendi o que quis dizer. Só acho, entretanto, que você escreve tudo isso tentando adequar o conceito de poética ao funcionalismo, sendo que alí não há poesia, mas uma secura sígnica que só eles viam como bom. Para mim, a poética está mesmo nos grupos que deram um passo a mais, ou seja, podemos enxergar realmente a poética nos pós-modernos, ou no design autoral contemporâneo, onde há realmente poesia alí… O objeto nos fala.”
“Certo”, diria eu, “entendo o que quer dizer, mas não sei se o foco desse projeto é realmente o seu caráter metafórico (ou poético), ou se ele acaba muito mais subsistindo por outra função de linguagem que não a poética, e sim a metalinguagem”.
A essência desse tipo de trabalho, ou se quisermos colocar também no rolo os irmãos Campana, acho que está na sua metalinguagem, na sua conversa com o código “design”, muito mais do que com seu uso, função, ou poética. Tratam-se, a priori, de subversões de conceitos anteriores (no caso dos grupos pós-modernos, do funcionalismo), e que acabam readequando a poética inerente a eles. Por isso os Campana são tão aplaudidos no mundo do design, sendo que o restante da população não conseguiria aceitar que uma mesa feita de ralos de banheiro seja algo interessante e digno de prêmios. Não faz parte do código deles a história do design, ou as influências dos Campana, ou o que quer que seja. No entanto, um projeto que lança mão da função poética a partir da metáfora e metonímia como as coloquei acaba chegando a todos, e sendo um objeto ou projeto completo, já que dialoga com um código quase universal, que pelo menos a maioria consegue apreender. E se design é comunicação, vale colocar aqui o conceito que Haroldo de Campos assumi para seu texto sobre o tema da poética (presente no livro que indiquei acima): “(…) a comunicação consiste no estabelecimento de uma unidade social, a partir de indivíduos, através do uso de linguagem ou signos”. Se não há essa unidade social, não há comunicação. Se não há comunicação, não há design.
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Eduardo Camillo K. Ferreira
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e idealizador do recém lançado Design em Artigos. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teorias de base do Design.
Cara, que bom ver iniciativas como a sua. Maravilha!