A constante busca pelos limites do design

Esse é um ponto que se bate excessivamente na mesma tecla: qual é o limite do design? Até onde ele chega? E arte e design, faz sentido contrapô-los? Mas e juntá-los? O que é certo e o que não é nisso tudo? Há o certo? Pois se não houver, salve-se quem puder!
Enfim, divagações à parte, essa é uma briga que até pouco tempo eu acreditava que não fazia muito sentido. Que tanto fazia se o que cada um acreditava era num limite claro do design ou num embassamento das fronteiras entre as disciplinas. Mas voltei a pensar nisso depois que tive ontem uma rápida conversa com um amigo.
Meu descaso com o assunto havia partido de um livro: Espécies de Espaços, de George Perec (recomendo). O livro trata de uma descrição/narração (não sei exatamente qual é o gênero daquele texto), onde ele vai falando e expondo pontos interessantes sobre diversos espaços diferentes: o espaço da cama, do quarto, da casa, do andar, do prédio, da rua, da cidade, etc… E vai meio que “desconstruindo” (eu realmente detesto essa palavra, pois ela é a modinha, o avant-garde no design, a ponto de eu ter lido faz pouco tempo num livro de design contemporâneo um texto bastante questionável sobre a (des)construção da imagem, onde de imagem pouquíssimo se falava…) nossa percepção e visão sobre essas coisas. Como, por exemplo, ao falar do quarto ele pergunta: se se muda a cama de lugar, se muda também o quarto ou ele ainda é o mesmo? Outra pergunta: porque as casas são divididas de acordo com seus usos e não de acordo com as estações do ano? E porque a gente usa tão pouco a parede para escrever, se normalmente ela é bastante lisa?
Enfim, o livro é bastante interessante, e me ajudou a pensar um pouco nesse assunto: por que criamos fronteiras entre as coisas? Trazendo para o que nos interessa, o design, por que tão insistentemente contrapô-lo à arte ou à engenharia, ou a qualquer coisa? (Aliás, na verdade estou para ver alguém tentar “diluir” a fronteira entre design e engenharia. Entre arte e design todo mundo quer, porque é bacana ser artista; agora , ser engenheiro…). Apoiei esse meu argumento sobre o seguinte ponto: há pontos ontológicos que constituem as coisas. Na metafísica, seria a essência da coisa. Um cavalo é um cavalo pela sua essência de cavalo. E as essências estão nos entes, nos seres, nas coisas que são. No entanto, não encontramos tais características tão “deterministicas” nos ambitos culturais. Se criamos o conceito e método de trabalho para a biologia, é para ela explicar determinada coisa. No entanto, não existe uma ontologia da biologia, afinal, ela não é um ser, mas apenas uma “categoria”, algo como um modo de agir e de pensar e ver o mundo. Não é paupável. E por isso mesmo ela (assim como todas as outras disciplinas do mundo) se mostra ineficiente para explicar com perfeição a vida: porque a biologia é uma interpretação, uma tradução da vida para algo entendível, sendo que a vida é ontológica, enquanto a biologia é convenção.
E, para mim, o mesmo se colocava no design. Não há como delimitar um conceito sobre algo que o homem “criou” (até porque, não sei se ele realmente criou, ou apenas aplicou um nome a algo que se mostrava claro), e que por ter criado, tanto faz se mudar ou não seu conteúdo. E, aparentemente, no design a encrenca é pior do que na biologia, pois essa ainda tenta ser uma maneira de entender e estudar, e cria estruturas para facilitar a compreensão da vida, enquanto o design é majoritariamente propositivo (mesmo que esteja junto dele o problema de análise e compreensão, não busca uma explicação simplesmente, mas uma solução a algum problema. Problema esse que, inclusive, muitas vezes advém do próprio homem).
A partir desses pontos, eu acreditava que discutir os limites do design era uma bobagem, que o que importa no final não é a classificação ou não do que fazemos, mas sim de como fazemos, e fazer bem independe de se falamos de arte ou não, de falarmos de engenharia ou não, de falarmos de design ou não. E que fazer bem era mais importante que falar sobre.
Era assim que eu pensava. Até ontem. Mas, antes de colocar aqui o que eu pensei, e como me posicionei a respeito do assunto, queria ouvir o que os leitores têm a dizer. No próximo artigo concluirei o assunto.
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Eduardo Camillo K. Ferreira
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e professor na Etec Guaracy Silveira no curso de Design de Móveis. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teoria de base do Design. Escreve também no Digerindo Arte.
18 outubro, 2009
Em relação aos limites do Design…digamos q trabalhamos com projetos ou soluções na área gráfica, produto, web, moda e interiores. Desde os tempos da velha e querida Bauhaus ou da Revolução Industrial o Design vem aprimorando-se e tendo novos conceitos, dai apareceu o Design Brasileiro, o Design Italiano, o Design Suiço, o Design Americano. Cada um com sua caracteristica.
Mas, em mil novecentos e pouco tempo atrás veio a tal “globalização” e o design tem seus [b]limites[/b] quebrados, passamos a criar modelos q tivessem padrões internacionais com caracteristicas nacionais e sempre mantendo qualidade, funcionalidade e estilo.
O Design como um curso/estudo(???)é interdisciplinar por natureza, encontramos Arte, mas não somos artistas, encontramos Engenharia mas não somos engenheiros, encontramos calculos, mas não somos matemáticos, questionamos porém não somos filósofos, falamos de Gestalt mas não somos psicologos.
E depois da Globalização deve vir mais coisas por aí…
Então acredito eu que: [b]O Design tem limites dentro do Design.[/b]O que não deve ter limites é a criatividade, a interdisciplinaridade e a cosntante busca pela evolução.
19 outubro, 2009
Interessante, Ramon. Achei bastante interessante mesmo esse conceito de “o design tem limite dentro do design”, pois pressupõe, portanto, que os limites do design estão caracterizados pela sua própria definição. O que torna nosso problema novamente complicado: qual das definições de design nós acolhemos?