A constante busca pelos limites do design (2)

Esse post é uma continuação do meu post anterior. Você pode encontrá-lo no seguinte link.
Resumindo, expus os pontos nos quais me apoiava para diluir as fronteiras que normalmente se colocam entre design e as demais áreas do conhecimento. E terminei falando que havia mudado minha posição. E esse post é para tentar explicar o porquê. Claro, como sempre, estou aberto a novas posições, portanto, meu post jamais é fechado. É apenas para erguer uma discussão.
Tentarei aqui, portanto, expor porque penso que se deve delimitar o campo do design. E explicarei, ao final, porque penso que o design deve se “alimentar” das demais áreas.
Quando levantei a questão de que o design, como a biologia, não possuiam uma ontologia que as fizesse ser o que eram, quis mostrar que uma matéria constituída pelo próprio homem é uma invenção, uma adequação de um modo de pensar para se chegar a um entendimento da realidade. E que no caso do design isso se mostra ainda pior, pois não é uma pesquisa para entendimento, mas uma proposição. O design é claramente afirmativo, diferente da biologia, que é desvendativa. No entanto, isso se mostra razoavelmente equivocado. E qual o motivo para isso?
Me parece que o pensamento acima colocado não consegue expor a realidade como ela realmente é, e como ela se mostra eficiente por ser assim. Há disciplinas que são universais, como é a filosofia, pois ela se pretende explicar as realidades mais basilares que vivemos. Desde a constituição do ser até como acontece a experiência do conhecimento. E a filosofia tem o poder de influenciar efetivamente no modo como se atua no mundo, a tal ponto que assuntos como aborto conseguem ter uma explicação contra (ou a favor) dentro da metafísica, de tal modo eficaz que as pessoas passam a defender aquele ponto. O mesmo para virtudes, ética, etc. É, assim, uma disciplina que se propõe desvendar a realidade.
Há outras disciplinas mais abstratas, como a matemática, que não são efetivamente reais (números não existem), mas funcionam de maneira extremamente bem para interpretar a realidade. Vejam bem esse ponto: a filosofia desvenda, a matemática interpreta. Funciona como uma mediação de entendimento entre o mundo e nosso conhecimento.
Encontramos ainda, aparentemente, outras disciplinas que funcionam analogamente à matemática, mas que observam diretamente a realidade para propor teses. É o caso da física, biologia, etc., pois não são disciplinas propositivas, mas analíticas.
Disciplinas propositivas, como a engenharia (e seus vários campos) e o design, se apropriam diretamente de estudos analíticos para propor. Propor soluções, técnicas, que necessariamente passam pelos estudos puros como o da biologia, da química, da neurologia, etc. Ou seja, traduzem o conhecimento antes adquirido para trazer soluções a problemas reais que as disciplinas anteriores não se encontram capacitadas a resolver, ou resolver completamente.
(Obviamente, essa divisão de disciplinas pode ser equívoca. Me baseei numa análise particular para chegar nela. E, além disso, defendo que o conhecimento de apenas uma das classes de disciplinas é um grande buraco na formação pessoa, pois esta acaba se encontrando incapacitada para pensar interpretar a realidade globalmente, e aparecem, como colocarei abaixo, problemas de fundamentação prática.)
E no que isso ajuda a resolver nosso problema? Simples: a realidade cotidiana pressupõe diversas ocasiões onde a pesquisa pura não pode resolver, nem a pesquisa intelectual. É à disciplina técnica que resta resolver isso, e resolver da melhor maneira. A maioria dessas ocasiões são momentos que não interessa à pessoa pensar criticamente na realidade, pois são ações maquinais. Utilizar um fogão, acionar uma bomba de gasolina, empunhar uma caneta para escrever algo rapidamente, esquecer-se de que está pisando num terreno pedregoso, expor idéias em um slide, etc.
O design, enquanto disciplina técnica, deve atuar na realidade dessa forma: solucionando problema. Mas só isso? Sim. Não consigo identificar outro motivo intrínseco a uma disciplina técnica que não esse. Mas isso de maneira alguma exclui a interdisciplinariedade do design. É evidente que não exclui! Pelo seguinte motivo.
Uma disciplina técnica não produz conhecimento, mas se apropria do que as outras disciplinas têm a oferecer, e readequa esse conteúdo de forma a realizar maneiras de melhorar a interação do homem com o meio, com outros homems e consigo mesmo. Isso faz com que o designer deva tangenciar outras áreas para que possa atuar de maneira completa.
Alguém pode apontar que, visto por esse lado, o design perde seu caráter crítico, sendo apenas uma marionete do mercado ou de interesses superiores. Não posso negar isso. Esse ponto não compete ao design resolver, mas às disciplinas intelectuais que o influenciam e ao designer. E esse é mais um motivo pelo qual a formação transdisciplinar é necessária. A atuação crítica parte de uma base filosófica que não compete ao design organizar. Podem funcionar conjuntamente, assim como filosofia e biologia. A biologia explica com provas que não existem raças entre homens, e a filosofia se junta a isso para reafirmar o que já afirmava antes: “todos homens são iguais”.
Isso tudo acaba levando a um ponto que é fulcral nas discussões do design hoje: o design, assim, é uma disciplina autônima com relação às demais, e, portanto, necessita de um ensino superior focado nesses pontos, e que nenhum outro consegue dar conta de apresentar. Nem arquitetura (que alguns já defendem ser uma sub-área do design), nem artes plásticas, nem engenharia, nem publicidade. Cada um é uma disciplina autônoma, todos, com exceção das artes plásticas, são técnicos, e todos passam por pontos semelhantes, mas nenhum segue o mesmo caminho. O design, mesmo sendo, junto da publicidade, o mais jovem dentre esse pequeno grupo, já conseguiu sua autonomia e maturidade metodológica, de pesquisa e de importâncias.
Enfim. Esse post já está se prolongando muito, e vou encerrar por aqui, deixando eventuais pontos para se discutir nos posts. Esse, acredito, não é o único ponto que justifique o design como uma disciplina delimitada (outros pontos vou acrescentando em outros posts, ou, quem sabe, algum dia volto tudo atrás) e não um ingrediente de uma sopa batida no liquidificador, que é o que as ciências humanas muitas vezes tendem a cair. Espero não ser crucificado por alguma possível bobagem que tenha falado, e também espero que esse texto levante debates frutíferos a todas as disciplinas. Sempre tendo em mente que a transdisciplinariedade é a chave para solucionar os problemas reais do homem no seu meio, mas desde que essa transdisciplinariedade seja efetiva, e não destrutiva.
Ah! E Feliz dia do Designer!
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Eduardo Camillo K. Ferreira
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e professor na Etec Guaracy Silveira no curso de Design de Móveis. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teoria de base do Design.
6 novembro, 2009
Edu, a discussão que apresenta (design como disciplina autônoma) me parece muito atual no contexto nacional. Conheço pessoas que estudam design fora do país e me parece que lá estes limites já são bem mais consolidados. Você teria exemplos de como estas relações se dão no exterior?
6 novembro, 2009
Rafael, eu não sei se entendi o que você quis dizer com consolidado, mas suspeito que você queira dizer que o que é e o que não é design é dito ser mais esclarecido, os limites estão melhores definidos. Minha experiência na Universidade do Porto me diz o mesmo. Não acho pessoas discutindo algumas coisas que ouvia discutir muito no Brasil. Em primeiro lugar, por um campo de atuação consolidado: aqui a profissão de designer existe legalmente e seu campo de atuação está bem definido há décadas. Em segundo lugar, um ensino consolidado: os cursos também existem há muito tempo e desde tanto discutem tais limites e vê sua aplicação de conhecimento muito mais expressiva na produção. Aqui perde-se menos tempo com reflexões entre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, o que é e o que não o é
6 novembro, 2009
Isso pode então ser um mérito da sua universidade, Beatriz, pois lembro-me de certa vez ter visto trabalhos de conclusão de curso de uma universidade holandesa, se não me engano, ou país próximo, e esses limites claramente não estavam presentes na esmagadora parcela dos trabalhos. Vou procurar algum link para postar aqui, e gostaria de ouvir comentários a respeito.
9 dezembro, 2009
parabens pelo post, acho pertinente esse tipo de reflexão. Eu acho que o design deve ser encarado e praticado como algo sem limites, e apoiar a sua existencia na interdiciplinaridade. Porem, para ser aprendido, o design deve ter algumas especificidades, e ser encarado como um saber unico. Na verdade as profissoes sao separadas em nichos para facilitar seus metodos de ensino, nada mais do que isso. Por que se formos pensar , tudo esta interligado de uma forma ou de outra na pratica. Assim, penso que fora das instituiçoes de ensino as pessoas devem encarar as suas atividades como parte de uma grande teia de conhecimento. Infelizmente como carater academico isso nao é muito simples, unicamente por uma questao “logistica”.
abraço e parabens pelo blog
20 janeiro, 2010
Legal, Raphael! Eu acho que é por aí também… Não podemos chegar a falar que tudo é separado, e que não ocorre uma permeabilidade nos assuntos, haja visto que partilhamos de uma mesma realidade objetiva, e nela estamos inseridos e convivendo. Tudo gira em torno da vida.
Mas, por esse mesmo motivo, é necessário que cada profissional seja extremamente competente no campo que lhe cabe, e talvez não apenas academicamente, mas praticamente, uma má interdisciplinaridade acabe por perturbar um equilíbrio que deveria existir. Posto a segui um link que pode ser interessante para levantar mais pontos para esse debate. Está no novo site, recém lançado, parceiro do Design Simples, que é o Design em Artigos.
http://www.designemartigos.com.br/a-multidisciplinaridade-no-ensino-do-design/
um abraço!