Cauduro: simplicidade para otimizar o uso (atualizado)
postado por Eduardo Camillo
Acabei de assistir a uma palestra do já conhecido João Carlos Cauduro, e decidi que valeria a pena fazer um pequeno apanhado e comentários sobre a obra do mesmo. Confesso que é por puro movimento emotivo, já que, mesmo já sabendo desde algum tempo da vasta obra do arquiteto e conhecendo alguns de seus projetos, sua palestra ainda foi bastante surpreendente (pelos próprios projetos em si, o contrário do que acontece com vários desigenrs showmans, onde sua desenvoltura de palco acaba sobrepondo e maquiando as enormes deficiências daquilo que está apresentando).
Cauduro é daqueles designers da primeira geração brasileira. Estudou na FAU-USP e formou-se arquiteto em 1960 e fundou seu escritório com Ludovico Martino em 1964, logo após retornar de um curso de desenho industrial na itália. Trabalhando no conceito de Design Total, acredita que qualquer projeto que participa não deve ser uma intervenção pontual em determinada realidade, mas sim uma revisão completa e coerente no que precisar ser feito para a manutenção de uma identidade empresarial, ou mesmo local, como demonstram alguns projetos como o da Avenida Paulista.
Para apresentar alguns trabalhos do mesmo aqui, vou trabalhar principalmente com imagens (algumas podem ser clicadas para maior visualização). Óbviamente que os trabalhos não são exclusivos do Cauduro, mas de sua equipe. No entanto, para facilitar, deixemos apenas o nome dele.
Sobre o trabalho para o metrô, acho interessante, mais do que direcionar para o website do próprio escritório do Cauduro, direcionar para um post de blog sobre a decadência da manutenção dessa identidade. Uma pequena observação apenas é quanto ao tipo usado na identidade. O site apresenta como uma Helvética modificada, no entanto hoje o próprio Cauduro apontou como uma Univers modificada para ganhar pouco mais de peso. Agora, a confirmação pode vir dos tipógrafos de plantão (tipografia não é de longe minha especialidade…).
Outro trabalho interessante, ainda no campo dos transportes, é o recém desenvolvido para a CPTM de São Paulo (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Sobre o projeto, direciono para o link da revista ARCOWEB, num texto de Evelise Grunow de 2009. Sobre o projeto, Cauduro comentou sobre a necessidade de uma re-padronização visual para toda a CPTM, que se encontrava completamente aleatória. A escolha de uma única cor, o vermelho, se deu inclusive pelo motivo de uma completa “des-identidade” de arquitetura das estações. Ao aplicar uma única cor, no entanto, se recria essa identidade, apesar do edifício. Para a identificação de qual linha de trem se está usando, diferentemente do metrô que muda a cor da sinalização por completa, acresce-se apenas na parte inferior da sinalização uma faixa com o nome e a cor da linha. Essa sutileza de aplicação em nada atrapalha sua identificação, e é interessante também averiguar que não há um conflito entre a vivência visual da CPTM e do Metrô, mesmo em estações onde estão integrados.
Ainda no âmbito da sinalização e do projeto público, o próximo é o famoso projeto para a Avenida Paulista, também de São Paulo. Novamente direciono para um link na ARCOWEB, numa entrevista com o próprio arquiteto que comenta extensamente sobre o projeto. Um dado interessante comentado na palestra de hoje foi o tempo de execução de tal projeto: 3 meses. Obviamente que é um tempo curtíssimo para a complexidade do mesmo, a extensão de aplicações e estudos de localização específicas de cada totem e suas necessidades, bem como para detalhamento das peças. Para esse projeto não foram desenvolvidas apenas a sinalização dos totens, mas também outros itens de mobiliário urbano, como coberturas e bancos.
Há outros tantos projetos que seria interessante apresentar, mas vejo que a internet carece de boas imagens dos mesmos. Se conseguir algo melhor, ou atualizarei o post, ou então crio um novo só de imagens. Mas, mesmo que pouco, creio que os exemplos que aqui apresento são mais do que suficientes para verificar a qualidade do trabalho do designer. Para finalizar, deixo o comentário que Chico Homeme de Melo fez hoje sobre o Cauduro: seu trabalho é quase uma obsessão para soluções de uso, e é justamente simples para poder otimizar tal uso.
Outros links:
- Cauduro Associados: website institucional
- Design Brasileiro: Quem fez, quem faz – Google Books
- CauduroMartino: design total – texto do site AgitProp por Celso Longo
ps.: entrei em contato com o próprio Cauduro, e ele gentilmente me enviou algumas imagens do projeto para a CPTM, e ainda um pequeno PDF com o diagrama de campos inclusos nessa idéia do Design Total (link para download do PDF). Agradeço a ele pelo material!
ps2.: mais conteúdo bom enviado. Dissertação de Mestrado de 2007 pela FAUUSP do (Cauduro – errado!) Celso Carlos Longo Junior. Link aqui. É simplesmente animal (perdi a compostura), com comentários de diversos mais trabalhos do escritório, com fotos da época, e uma atualização para o estado atual dos itens, como da Avenida Paulista. Muito obrigado novamente, Cauduro!
__________
Eduardo Camillo é graduando no curso de Design da FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e idealizador do Design em Artigos.








Eduardo Camillo, concorda comigo que o Cauduro é o egresso mais representativo, no campo do design, da Fau-Usp? Posso dizer, com quase absoluta certeza, que o conceito de “Design Total” nunca foi abordado pelo curso de Design desta faculdade. Você que, assim como eu, atravessou todo este percurso, acha o mesmo? E afinal de contas, o que é “Design Total”?
Oi Gatti!
Concordo plenamente com você! Tanto que o de maior projecão é ele mesmo!
O conceito de design total, segundo o site do escritório, é:
“O Design Total dá vida à Marca Total.
Cria ótima percepção, clareza e simplicidade, imagens atraentes, inesquecíveis e expressivas: comunica os valores estratégicos.
E, mais importante: o Design Total cria Beleza.
Além do econômico e do sustentável – o básico -, a Cauduro vai mais longe.
Cria o Design Total: a integração completa da presença da Marca Total.”
Enfim, decupando o que está escrito, vejo como a adequacão completa de todos os âmbitos do projeto à identidade do mesmo. E isso perpassa tanto identidade visual quanto projeto de produto. Isso pode ser visto nos projetos completos para a CPTM, que passa por logo, sinalizaćão (estou sem “cê-cedilha hoje…), suporte da mesma, ambientaćão, uniformes, papelarias, etc…
E não, não tivemos isso em nosso curso, e nem sei se alguém já teve em algum lugar. Infelizmente.
Olha… dúvida: isso não seria o tal do design de serviço? (desculpe Gatti, mas eu não entendo)
Dia desses estava conversando com uma de nossas professoras, e a descrição dela dessa “área”, “seçåo”, “segmento”, enfim, desse pedacinho do design era bastante similar à proposta do design total. É pensar num panorama mais amplo, que acaba contendo “sub-projetos”, as vezes bastante diferentes entre si (como um banco pro cara esperar, e o site da cptm, por exemplo), mas que respeitam a um mesmo conceito primordial…
puxa, ana, acho que podem ter similitudes, mas acho que o design total é ainda mais abrangente, pois não pressupõe um serviço, mas qualquer ambiente de trabalho para o designer. Por exemplo, o projeto que eles fizeram para a av. Pacaembu. Não tem nenhum serviço associado, mas, tem inclusive projeto urbanistico. O design total pode abarcar um serviço. Mas nem sempre é o contrario também.
Parabéns pela iniciativa Edu! Esta dissertação é ouro… E me fez sentir orgulho de ser um designer brasileiro.
Pessoal,
Sem dúvida a Cauduro é um dos maiores escritórios de design especializado em identidade de marca/produto do Brasil.
Não conheço a estrutura e metodologia da Cauduro, imagino a equipe formada por designers (gráfico, produto e interiores) e arquitetos. Não sei é o forte deles a área estratégica, no caso equipe especializada em negócios, branding e inovação.
Pra mim a denominação Design Total é como um rótulo, um apelo de venda, para cliente entedender que para alcançar notoriedade a uma marca/ produto é preciso muito mais que um logo.
Design é design, os outros rótulos como Design Estratégico, de Serviços, Thinking e por ai vai são apenas rótulos para uma nova concepção estratégica (e não mais operacional apenas) do design.
Um abraço
Eduardo,
Para esclarecer a dúvida sobre a tipografia, o projeto original da Identidade Visual para o Metrô de SP, desenvolvido pela Cauduro Martino, indicava uma Univers adaptada (esta informação pode ser confirmada na tese de doutorado do próprio Cauduro). No entanto, o que encontramos nas placas existentes na rede do Metrô é uma Helvetica adaptada. Ou seja, por algum motivo desrespeitaram o projeto.
Outra observação: há um erro no PS2., pois o autor da tese de mestrado de 2007 não é o Cauduro, mas sim Celso Longo.
Abraço