Conceituando a Simplicidade

postado por Eduardo Camillo

Gostaria de inaugurar, hoje, com esse post, os artigos quinzenais que escreverei aqui no Blog. Não terei um assunto fixo, mas podemos dizer que meus assuntos preferidos são a teoria de base do design, semiótica, história, metodologia, ética, filosofia, etc… Como podem ver, os assuntos são em geral não muito “pés no chão”, mas meu propósito é totalmente o contrário disso. Fazer disso tudo uma possibilidade de melhorar o projeto em design. Então, vamos começar…

Alguns leitores podem ter se perguntado sobre o porquê da insistência com o tema da simplicidade nesse site. Afinal, o que é tido como simples usualmente é classificado assim pejorativamente. Ou porque não tem nenhum atrativo, ou porque carece de desenvolvimento.

Por outro lado, também se classifica como simples aquilo que oferece ao usuário uma interface de uso amigável. Em outras palavras, aquilo que participa de seu código…

Código é, segundo Umberto Eco no seu livro “A Estrutura Ausente”,

“(…) o sistema que estabelece 1) um repertório de símbolos que se distinguém por oposição recíproca; 2) as regras de combinação desses símbolos; 3) e, eventualmente, a correspondência termo a termo entre cada símbolo e um dado significado”.

Assim, o código é algo mutante, passível de alterações, podendo ser individual (um idioleto), ou convencional de uma cultura (como a linguagem escrita ou vocal)… Enfim, há diversos modos de se entender o código. Simples seria, então, aquilo que se encaixa perfeitamente e sob qualquer aspecto de si nesse código a que o usuário está imerso.

Muito bem, aqui se chega num ponto talvez crítico, que seria afirmar a determinística e relativista frase “portanto, a simplicidade é relativa”. Sim e não. Vamos tentar observar mais profundamente esse problema (gostaria de deixar claro aqui que isso tudo para mim é um trabalho em andamento. Ainda estou me aprofundando nos estudos disso que aqui escrevo, e pode acontecer de algum dia eu desdizer tudo que escrevi).

Se pensarmos nessa íntima ligação da simplicidade com o código, logo conseguimos ver que aquilo que é simples para determinado código pode não ser para outro. Se conseguimos entender bem a palavra “borboleta” aqui no Brasil, em nenhum outro lugar que não compartilhe o código “lingua portuguesa” conseguirá compreendê-la. Se também aqui no Brasil conseguimos assimilar facilmente o que significa um bombril dependurado numa antena de TV, qualquer um que não compartilhe dessa gambiarra como solução de mal-projeto não a irá entender. O que é simples para uns (bombril ajuda a melhorar o sinal da TV), não é para outros (bombril? Que é isso?). O exemplo foi bobo e falido, mas talvez sirva para esclarecer melhor o que tentamos falar sobre código e simplicidade. E tudo isso é uma grande evidência, algo inegável. Aquilo que não conhecemos, não existe para nós, pois não faz parte de nosso código, nem repertório de referências.

Mas também podemos ver pelo outro lado: tentar procurar talvez um código comum para todos os homens. Para alguns, afirmar isso seria uma grande heresia, algo incabível. Mas, ainda assim, podemos fazer algumas ressalvas antes de aprofundar nessa pesquisa. Vou primeiro listá-los para depois aprofundar um pouco neles. 1) esse código universal não pode ser constituído de hábitos. 2) também desse código deve ser excluído qualquer conteúdo subjetivo de entendimento da realidade. Vamos agora verificar um por um.

1) esse código universal não pode ser constituído de habitos – isso abrange tanto hábitos individuais (manias pessoais) quanto hábitos convencionais (aqueles definidos e aceitos por uma grande parcela de um povo). Devemos excluí-los pois são constituídos através da experiência de cada indivíduo ou de um grupo, portanto, nem todos necessariamente passam por essa vivência para poder assumí-los.

2) também desse código deve ser excluído qualquer conteúdo subjetivo de entendimento da realidade – aqui, falamos de interpretações pessoais empíricas ou conceituais sobre o mundo.

Enfim colocadas as ressalvas, podemos partir para a procura desse código. Se excluímos ações convencionais e impressões pessoais, podemos perceber que devemos focar naquilo que é apreensível por evidência por todos, mais especificamente, relações claras. Aquilo que é imediato aos sentidos. Como um exemplo, pensemos num copo. Intuímos que a idéia de partida dele tenha sido a observação de algum item na natureza que pelas suas características côncavas conseguiram armazenar dentro de si qualquer tipo de conteúdo líquido e esguio, como a flor “Copo-de-leite”. Por analogia, chega-se a um conceito “armazenar”. Esse código universal estaria então em perceber relações entre as coisas. Captar um conceito funcional de determinado acontecimento, e copiá-lo artificialmente em outra situação (talvez não devessemos nem chamar de código, mas deixemos assim por enquanto para verificar melhor a validade dessa palavra num outro post).

O mesmo podemos fazer com uma cadeira. Talvez tenha nascido da observação de que planos elevados a determinada altura do chão são mais confortáveis para sentar. Talvez não, mas o que importa não é a origem exata dessas analogias, mas sim que foram apreendidas dessa maneira.

Gostaria de acrescentar aqui um ponto que também poderia ser tomado como universal para encontrarmos esse código: o modo de percepção sensível das coisas são fenomenologicamente iguais para todos (não se acanhe, leitor, com essa palavra “fenomenologia”, mas continue a ler e perceberá que o conteúdo que esse método filosófico nos apresenta pode ser bastante útil para o entendimento do fenômeno “simples”).

A fenomenologia nos coloca alguns conceitos que são importantes para uma análise da percepção, pois partem da evidência, aquilo que é claro para a consciência do homem. Vou colocar apenas quatro, para tentar elucidar isso: as totalidades das coisas podem ser analisadas em dois tipos de classes: pedaços e momentos (na terminologia fenomenológica). Pedaços são aquilas coisas que podem ser compreendidas isoladamente, como por exemplo, um fruto (exemplo utilizado por Skolowski no seu livro “Introdução à Fenomenologia”). Momentos são partes que não podem ser isoladas, que devem ser apresentadas conjuntamente de um todo, como a cor “vermelho”. Não é possível desvinculá-la de uma superfície. Outros dois pontos que a fenomenologia nos apresenta são os conceitos de “presença” e “ausência”. Há o célebre exemplo do cubo. Quanto pegamos um cubo e observamos apenas uma de suas arestas à altura dos olhos, enxergamos duas de suas faces, que estão presentes à observação. Já as outras 4 faces nos estão ocultas, “ausentes”, mas as intuímos, percebemos intuitivamente sua presença.

No que tudo isso pode nos ajudar? Justamente em perceber que todos percebem a realidade através desses meios. Não há percepção humana que não tenha presenças e ausências, nem pedaços e momentos. Faz parte do código perceptivo humano ver as coisas dessa maneira (do código perceptivo pois nossos sentidos possuem limitações naturais que ordenam nosso modo de ver o mundo, não é uma gama infinita de modos de percebê-lo, mas sim do modo como nossas limitações a permitem).

Penso que partindo desses pontos, um projeto interessante e simples seria aquele que funda-se no reconhecimento de sí via relações com aquilo que está na natureza evidente a todos, e que pensam não nos “pedaços” das coisas, mas em seus momentos. Por exemplo, um modo de projetar um botão não é isolando-o como um pedaço do objeto, mas como um momento, inseparável de sua função no conjunto do objeto. Aqui encontramos uma justificativa parcial para a frase “a forma segue a função”, pois a forma daquilo que projetamos é um momento da função que deve exercer. Não quero que tudo isso pareça um manifesto pela volta do funcionalismo, mas sim gostaria de tentar tornar claro que encarar o projeto como um todo funcional auxilie a torná-lo claro para o usuário.

Bom, coloquei aqui diversos pontos que poderíamos tomar para entender o que seria a simplicidade num projeto de design. Ressalto o que no início escrevi: é para mim um processo em andamento, ainda estou estudando esses pontos, e tentando entender se valem de verdade para todos, para chegar nessa simplicidade que se está propondo. Tentarei em outros posts descrever mais detalhadamente cada processo, e apresentar outros, mas isso tudo está para mim claro que podem ser falsos, inverdades, interpretações errôneas da realidade. E gostaria que os leitores ajudassem nessa tarefa.

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Eduardo Camillo K. Ferreira
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e professor na Etec Guaracy Silveira no curso de Design de Móveis. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teoria de base do Design. Escreve também no Digerindo Arte.