Design e Brasilidade – parte II – Revendo a brasilidade do brasileiro
postado por Eduardo Camillo
Esse post foi originalmente apresentado no blog Filosofia do Design, e eu pretendia fazer uma versão menor dele para colocar aqui, mas como o TCC anda, eu não o pude fazer. Decidi então deixar aqui a referência para lá, bem como colar alguns trechos, acho que é suficiente por enquanto.
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“Renato Ortiz em seu livro Cultura Brasileira & Identidade Nacional traça uma panorâmica bastante interessante sobre justamente as diversas tentativas de teóricos ao longo da história que tentaram fundamentar a existência desse “ser brasileiro”. Já em sua introdução aponta que “(…) toda identidade é uma construção simbólica (a meu ver necessária), o que elimina portanto as dúvidas sobre a veracidade ou falsidade” (pg.8) desse homem brasileiro universal. Acredito que ressaltar essa necessidade que ele aponta é importante por dois motivos: 1.pela inevitabilidade de sua existência; e 2.pela função integratória que aparentemente aponta. Inevitabilidade porque a vivência coletiva traz um afrouxamento das características unicamente individuais das pessoas, mesmo que esse afrouxamento seja colocado pelo contexto histórico ou mesmo legislativo daquele coletivo. Uma moral que coordena as ações desse grupo criam uma unidade construida nos mesmos que, mesmo nas ações masi básicas, se pode encontrar padrões de atuação neles. E coloco a importância da função integratória pelo simples motivo de que assumir uma identidade grupal faz parte da vivência humana. Mesmo que alguém opte pelo afastamento social é porque reconhece nesse grupo uma unidade que não lhe apetece, e assim se retira de seu convívio. O fato de que Ortiz nos traz logo de cara a necessidade simbólica disso (embora ele não vá em nenhum momento para o lado da semiótica, podemos lembrar que o símbolo em Peirce nasce do hábito e da convenção) nos dá um atalho para quebrar logo de cara qualquer tentativa de ver no homem brasileiro alguma coisa intrínsecamente dele que, mesmo isolado, o tornaria brasileiro. Não existe. Assim, o primeiro ponto que podemos tirar aqui é que o brasileiro se constrói através da sua vivência de brasileiro.”
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“Vilém Flusser estava abençoado quando escreveu A fenomenologia do brasileiro, e é importante aqui colocar o subtítulo do livro: Em busca de um Novo Homem. Flusser desenvolve continuamente uma redução fenomenológica a fim de tentar desvendar esse fenômeno do homem brasileiro, sempre de uma perspectiva de um migrante que caiu em nossa terra de paraquedas e tentou a vida inteira nos desvendar. E o subtítulo de seu livro é justamente o que de mais importante ele viu por aqui: a estrutura a-histórica do brasileiro, bem como sua característica de hommo luddens, na sua defasage cultural, assim como seu quase natural engajamento existencialista fazem com que o brasileiro seja esse mais provável Novo Homem (vale, entretanto, dizer que esse livro data da década de 80, ou seja, o mundo asiático ainda inexistia praticamente em suas novas potências. Assim, não sei a visão que ele teria do pessoal de lá).”
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O fato é que acabo retornando à afirmação inicial, e que vejo-o presente tanto no texto de Ortiz, quando de Flusser, quanto do DaMatta: o brasileiro se constrói atrávés da vivência do brasileiro. O sentido existencial presente nessa idéia acaba criando a possibilidade de uma revisão cultural para a apreciação de padronagens que permitem colocar sob o guarda-chuva do brasileiro uma quantidade de gente tão grande quanto temos em nosso país. E, do que vivenciei empiricamente em viagens a Roraima, Pará, Paraná, Minas Gerais e, aqui, São Paulo, o brasileiro possui sim algo que o identifica. Não sei bem o quê, mas essa condição de brasileiro é muito forte.
Assim, o que consigo imaginar agora ao tentar me voltar ao design, é que qualquer pretensão de brasilidade nasce de tentar entrar no mundo dessa condição, e não de tentar encarar qualidades gráficas como nativamente brasileiras. Curva, cor e degradê são tão brasileiros quanto mexicanos e argentinos. O que nos faz brasileiros, e que é possível tentar identificar numa marca gráfica ou num sistema de identidade que deve nos representar não são esses simbolismos marqueteiros. Infelizmente, ainda não consigo dizer o que é, mas, se os autores que aqui foram apresentados estiverem com alguma ponta de razão, há alguma coisa existencial no brasileiro que é maior do que esse formalismo caricato que estão tentando enfiar guela abaixo do povo… Se é que eu fiz a leitura correta desses autores.”
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Posts anteriores da série:
Design e Brasilidade – parte I – Apresentando o problema
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Eduardo Camillo é graduando no curso de Design da FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e idealizador do Design em Artigos.
