Design e inovação: styling e funcionalismo

postado por Eduardo Camillo

(Esse é um post de lançar idéias para uma conversa franca. São inquietações, que gostaria de expandir com mais gente. Eu gostaria muito que uma pessoa em específico comentasse, já que especialista em inovação, mas não creio em tal honra…).

Design sempre esteve associado de algum modo a inovação. Inovação, segundo a Wikipedia, “…significa novidade ou renovação. A palavra é derivada do termo latino innovatio, e se refere a uma idéia, método ou objeto que é criado e que pouco se parece com padrões anteriores. Hoje, a palavra inovação é mais usada no contexto de idéias e invenções assim como a exploração económica relacionada, sendo que inovação é invenção que chega no mercado” (link –  mas não sei se concordo…).

Aqui, no nosso Design Simples, encontramos a seguinte definição de inovação, segundo o Manual Simples de Inovação:

“Uma inovação nasce quando um produto, um processo, um método de marketing ou um método organizacional novo, ou com melhorias significativas, é implementado no mercado e utilizado de forma efetiva nas atividades de uma empresa. Inovações podem ocorrer em qualquer setor da economia, inclusive no setor público.

“Para inovar, é preciso interagir com o novo. Uma inovação pode ser nova para uma empresa, nova para um mercado ou nova para o mundo todo caso alcance diferentes mercados.

“A atividade de inovação acontece sob grande incerteza, envolve investimentos e está sujeita à difusão. Compreende etapas científicas, tecnológicas, organizacionais e econômicas”

No fundo, a inovação se concretiza quando em circulação, mas a mesma já existe desde o momento que é  concebida. Há inclusive um paralelismo conceitual entre a própria idéia de “projetar” e de “inovação”. Não me recordo a fonte, me perdoe o leitor, mas havia alguém que dizia que projetar é lançar à frente, tateando-se um campo desconhecido, e assim, fazer para o futuro, fazer do hoje o futuro, baseando-se em pontos e análises do passado.

Eu arriscaria dizer que projeto de verdade se faz dessa maneira. Releituras conceituais estão em outra área, numa metalinguagem do design, mas não do real projeto. Criatividade, portanto, não é sinônimo de inovação. Pelo menos não no design.

O que me tem incomodado é a idéia que se tem desse termo “Inovação”. Percebo na fala das pessoas algo assim: “Fulano fez um belo projeto! Resolveu perfeitamente o problema, mas… achei muito conservador… Gosto de inovação!”. Péra lá… Não entendi a diferença. Se fulano resolveu perfeitamente o problema numa estética “conservadora”, onde que está a impossibilidade da inovação? Me intriga que inovação esteja sempre associada a malabarismos formais e conceituais. Que o espremedor de laranja do Starck é inovador, mas que a aplicação de premissas funcionalistas num projeto o impessa imediatamente de ser inovador. Vou citar exemplos de pessoas concretas e projetos concretos, porque a seguir os defenderei.

O Design Simples está postando aqui os TCCs da primeira turma do curso de design da FAUUSP (embora eu faça parte dessa turma, não me formei esse ano… Mas ano que vem espero ter minha cara estampada num post desses). Para ilustrar o conceito que estou apresentando, vou me utilizar da Cibele. Cibele construiu um carrinho para compras de pequena e média quantidade, que pode ser levado na feira-livre e no supermercado. Perfeito.

O fato é que seu projeto pode muito facilmente ser visto como um projeto “honesto”. É um projeto “correto”. Apresenta uma estética relativamente neutra, com princípios de funcionamento muito bem articulados. Ok. Um projeto que resolve.

Esses adjetivos, no entanto, escondem essa “aura reacionária” do funcionalismo, onde se argumenta que não há inovação. Há o “correto projetar”. Ponto. A ortogonalidade de seu projeto, bem como a limpeza aplicada nas tubulações milimetricamente desenhadas, ou no funcionamento intuitivo do regulador de altura da empunhadeira, dão um ar “careta” ao projeto que o retira imediatamente de qualquer classificação de inovador.

Pois eu tenho que radicalmente me opor a tal visão. A inovação presente em qualquer projeto de design se caracteriza pela possibilidade de trazer novas soluções a problemas antigos, não importando sua estética. A inovação presente nesse carrinho se encontra na maneira de solucionar funcionalmente o fecho das bolsas e de seu apoiar no carrinho (o uso em si de bolsas não é algo novo, mas seu conceito pode ser tomado ainda como inovador, já que não incorporado no uso cotidiano), do fechamento e compactabilidade do carrinho, da inovação social presente em colocar uma bolsa térmica como possibilidade de câmara de armazenamento. Etc. Etc.

Assim, me incomoda que projetos desse tipo possam ser depreciados por essa fala do “honesto”, inclusive como se honesto fosse um defeito, não uma virtude e das mais caras. Como se ser “honesto” não pressupõe ousadia (que ousadia, por exemplo, teve o William ao escolher projetar um produto extremamente banal como um bebedouro…). E o que vejo de mais belo nesse tipo de projeto é que estão baseando-se nos problemas do cotidiano. Não é inventar mais uma cadeira com ursinhos carinhosos grapeados a ela. Isso é uma tremenda bobagem, e me dói ouvir isso como “exemplo de inovação”.

A verdadeira inovação, até onde consegui vislumbrar, está em tornar o uso cotidiano dos objetos algo prazeroso e, ao mesmo tempo, quase que inapercebido. Quem projetou uma haste com tinta interna (hoje chamada caneta) inovou com clareza. Já aquele que teve a magnífica idéia de colocar uma tampa para que a tinta não seque, e que, além de tudo essa tampa pode ser “guardada” no final da caneta enquanto se escreve para que não se a perca teve uma inovação tão boa quanto, mas menos reconhecido. E ainda tem aquele que percebeu que não é necessário colocar uma tampa numa caneta, mas basta um pressionar de botão no seu topo ou corpo que aciona um mecanismo de molas e a haste tinteira se projeta para seu exterior. Hoje ninguém pensa e nem presta atenção ao acionar um botão na bunda de uma caneta. E enquanto houverem melhorias a serem feitas nessa caneta, para que ninguém, por exemplo, corra o risco de pegar a caneta de botão e tentar escrever com a carga para dentro, ou para que não se a guarde no bolso com essa mesma carga para fora e suje tudo, enquanto houverem essas melhorias, haverá possibilidade de inovação. Mesmo que a estética da caneta permaneça sendo de uma Bic.

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Eduardo Camillo é graduando no curso de Design da FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e idealizador do Design em Artigos.