Filosofia do Design, parte LII – Feminino Design

postado por designsimples

Quando eu estava na faculdade, o pessoal de engenharia achava que todos os designers, sem exceção, eram gays. Mesmo em tempos de emancipação sexual, parece que o Design é de fato um lugar privilegiado para homossexuais. Entendendo sexualidade como parte de nossa identidade subjetiva, não acredito em homossexualidade. O que existe, desde os primórdios da humanidade, são relações homo-afetivas que, exceto em questões políticas, são iguais às relações hetero-afetivas. De todo modo, o Design não me parece algo “homossexual”. Antes disso, parece-me algo feminino.

Para Baudrillard (1991), o feminino contradiz a oposição masculino/feminino na medida em que é indispensável para ambos. Enquanto o mundo masculino tem o poder, relacionado historicamente ao conceito de produção, o mundo feminino tem a potência da sedução, que é necessária ao poder. Logo, todo tipo de produção está subordinado à sedução feminina, o que contraria o discurso feminista tradicional já que, neste sentido, a mulher possui uma posição privilegiada na cultura ocidental.

As trocas simbólicas (antes das sexuais) e o jogo das aparências (não apenas físicas e superficiais) pertencem à esfera da sedução, onde buscamos nossa identidade confrontando-nos uns com os outros. Na dimensão do Design, lidamos com o desejo das pessoas, seduzindo-as por diversas formas. Nosso espírito feminino não nega a natureza masculina, mas a coloca em jogo: o desejo por poder (masculino) não deve permanecer vazio e, ao mesmo tempo, nunca deve ser preenchido.

Isso me faz lembrar aquele Admirável Mundo Novo, descrito por Huxley em 1932, onde a sociedade era basicamente movida pela sedução. A falta de liberdade que mantinha estável a ordem social era compensada com a liberação sexual e a garantia de felicidade: o consumo de soma (droga distribuída pelo governo) oferecia uma aparência eternamente jovem às pessoas, as quais eram estimuladas a fazer sexo livremente. Não seduzir ou deixar-se seduzir era considerado uma atitude antissocial, sendo proibido manter relações com um único parceiro.

Aproximação e distância, submissão e liberdade, sentimento e indiferença. Tal cenário pode parecer promíscuo, mas não obsceno – as relações não aconteciam de forma imediata, sem desejo ou encanto. A obscenidade, ao contrário da sedução, é masculina: não há distanciamento, não há jogo algum, tudo é excessivamente exposto e realizado.

Ora, se no admirável mundo novo a sedução era condicionada pela mídia, somos nós, designers, que escondemos a obscenidade grosseira e fria do mundo real. Mesmo quando desnudamos a realidade, tornando-a mais obscena, estamos tentando seduzir. E quando seduzimos alguém, estamos nos auto-seduzindo também, já que a paixão que temos por nós mesmos é o que mantém a sedução inesgotável. Eficácia, funcionalidade, saúde, alimentação, estética corporal – uma auto-obsessão que nos satisfaz e simultaneamente nos decepciona.

O problema da natureza feminina do Design é quando precisamos de virilidade, isto é, quando precisamos seguir um princípio único, com objetivos claros que nos orientem. Não sabemos o que é Design, apenas somos designers. Pois se Design fosse algo exato e óbvio, seria demasiado obsceno e nada sedutor. Consequência disso é que estamos sempre confundindo todo mundo e nos confundindo também, atuando de modo mais emocional do que funcional.

Retomando a tradição bauhausiana do Design, penso na trajetória de Roquetin, protagonista do romance “A Náusea” de Sartre: intrigado com a natureza caótica e doentia do mundo, ele procura projetar um universo mais funcional, certo e previsível, seguindo a virilidade da física newtoniana. No entanto, sua obsessão o leva a um caminho oposto: um mundo imaginário tão imprevisível quanto sedutor, com a beleza feminina que falta ao mundo real.

Pode ser que o Design ainda esteja em fase de transição, sem saber muito bem como assumir o seu lado feminino. Em todo caso, o fato é que estamos nos adequando cada vez mais a novas situações, de modo movente e fugitivo. A cada projeto adotamos uma postura diferente, criamos um tipo de relação diferente, sempre movidos por uma paixão em comum: o ser humano. Não é mais uma questão de forma e função. É de sensibilidade e reconhecimento.

Referência Utilizada:

- BAUDRILLARD, J. Da Sedução. São Paulo: Papirus, 1991.

__________

Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.