
Filosofia do Design, parte LVII – Design Inteligente
postado por designsimples
Design Inteligente ou Design Divino é o nome atribuído a uma corrente científica que procura explicar um aparente mecanismo natural que, por sua complexidade, indicaria a existência de um designer sobrenatural (ou seja, Deus). Provavelmente essa ideia veio de Aristóteles (1969), segundo o qual haveria um motor imóvel como sendo o designer criador do cosmos. Os atuais defensores do Design Inteligente acreditam que, através de investigações científicas sobre as evidências inteligentes, seria possível não apenas consertar a teoria darwinista, mas sobretudo juntar finalmente a ciência e a religião.
Um dos mais conhecidos críticos contra tal vertente é Richard Dawkins (o papa dos ateus). Em seu livro “Deus, um delírio” (2007), o autor argumenta que a hipótese do criador-designer imediatamente levanta um problema maior: quem teria concebido, anteriormente, este designer? Por detrás deste ingênuo argumento, há uma tentativa neo-esquerdista de amenizar a livre-concorrência do darwinismo social e de anular a opressão autoritária de um deus.
Um adendo pessoal aqui: não vejo nenhum problema em ser ateu. O problema é cair nesse papo-furado contemporâneo de associar o ateísmo a políticas públicas e publicidade autoajuda. Quer ser ateu? Leia os trágicos como Nietzsche, Hölderlin, Rosset, Cioran, etc. Se quiser parecer científico, estude Darwin e a teoria do multiverso, universo oscilante, teoria das cordas… mas não caia na conversa fiada de Dawkins para ateus inseguros.
E o que isso tudo tem a ver com Design? Dawkins afirma que as religiões são nocivas ao bem-estar da sociedade. Designers se preocupam com o bem-estar da sociedade. Assim como Dawkins, designers são utilitaristas. O bem-estar, para nós, significa sustentabilidade, design de serviços, design social, design autoajuda. Reduzimos o mundo a uma materialidade banal. Ignoramos a busca desesperada do homem por formas simbólicas que o façam aguentar o absurdo que é, por exemplo, a certeza da morte.
“Ao pensar no Design coloca-se imediatamente a questão do desassossego ou mal-estar com alguns indícios de infelicidade. Indícios que quanto mais tentamos compreender e interpretar mais se aprofunda esse mal-estar. Designers inquietos, teóricos e críticos desatentos, produtores (industriais) reticentes e público atónito, são o quadro do mal-estar do e no design” – Daciano da Costa em “Design e Mal-Estar”, 1998.
O autor mencionado acima sinaliza um outro lado do design, menos utilitarista e mais voltado ao mal-estar. Sob este viés, o Design surge a partir de algo que incomoda o ser humano. E se pensarmos que o medo da morte é um incômodo universal, poderíamos supor que o Design seja uma espécie de resistência simbólica contra a morte.
Em seu livro “A negação da morte”, Ernest Becker (2010) argumenta que o peso da morte é insustentável na dimensão materialista-moderna e, por isso, passamos a não mais aceitar a morte. A partir disso, surge um heroísmo na sociedade contemporânea: o homem utiliza a violência (obsessão) como substituta da experiência sagrada, ou torna-se artista (criador), sendo a obra artística (criação) sua forma de heroísmo.
“Seu trabalho criativo é, ao mesmo tempo, a expressão de seu heroísmo e a justificação desse heroísmo. É a sua religião particular – como disse [Otto] Rank. A originalidade desse trabalho lhe dá a imortalidade pessoal; ela é o seu além, e não o de outras pessoas. (…) Como é possível justificar o próprio heroísmo? Seria preciso ser como Deus” (BECKER, 2010, p. 211).
Então o que eu acho é o seguinte: a morte é um Design Inteligente. Precisamos lidar com o fato de que cada dia a mais é um dia a menos – para tanto, somos heróis, criadores, designers. Baudrillard (2008, p. 100) não me deixa mentir: “enquanto a presença do objeto final significaria no fundo a morte do indivíduo, a ausência deste termo lhe permite apenas desempenhar sua própria morte figurando-a em um objeto, vale dizer, conjurando-a”.
Digo mais: se estamos em um paradigma que tende a negar a morte, não me surpreende que o Design tenha se tornado um forte elemento discursivo aos mecanismos sociais (consumo, mercado, controle, etc.). Ora, se até Deus virou designer, nós designers, parafraseando Dostoiévski, inventamos Deus para que a vida continue aceitável sem a morte.
“O que o homem encontrará no objetos não é a garantia de sobreviver, é a de viver a partir de então continuamente em uma forma cíclica e controlada o processo de sua existência e de ultrapassar assim simbolicamente esta existência real cujo acontecimento irreversível lhe escapa” (BAUDRILLARD, 2008, p. 104-105).
Referências Utilizadas:
- ARISTÓTELES. Metafísica. In: Coleção Biblioteca dos Séculos. Trad. Leonel Valandro. Porto Alegre: Editora Globo, 1969.
- BAUDRILLARD, J. O Sistema dos Objetos. Trad. Zulmira Ribeiro Tavares. 5. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.
- BECKER, E. A negação da morte. Uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.
- DA COSTA, D. Design e Mal-estar. Lisboa/Porto: Centro Português de Design/Porto Editora, 1998.
- DAWKINS, R. Deus, um delírio. Trad. Fernanda Ravagnani. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.