Filosofia do Design, parte LXIII – Design, discurso e trocas simbólicas

postado por Marcos Beccari

O papel social do Design não é apenas político. Claro que seria ingênuo simplesmente não enxergar que, de fato, há sempre um discurso ideológico por detrás de qualquer atividade humana, coisa que Foucault nos mostra com primazia. Mas reduzir todas as relações humanas, especialmente aquelas mediadas pelo Design, a este ou aquele discurso parece-me, no mínimo, um exagero conceitual.

É verdade que há sempre um discurso ideológico atuante nas relações sociais. Afinal, estamos negociando algo o tempo todo, trocando ideias, palavras, sentimentos e até princípios éticos. Também estamos negociando quando tentamos encontrar razões, causas e finalidades para as coisas, pois para isso é necessário um referencial, um equivalente, um comparativo.

De certo modo, acho que até mesmo a felicidade e a infelicidade podem ser negociadas, vendidas e compradas. Em todo caso, esta constante troca é definida por um determinado discurso ideológico que, por sua vez, alicerça nossos valores morais. No entanto, as relações sociais não se moldam apenas em termos de valor (resultante de comparação), mas também em termos de afeto (que é uma forma de negação do valor).

As amizades, relações entre casais e entre pai e filho, por exemplo, nem sempre seguem uma lógica de comparação. Antes disso, este tipo de relação demanda certa abertura e cumplicidade, de tal maneira que nos permita receber e aceitar determinado pensamento ou sentimento sem que haja um referencial preestabelecido.

Tal relação continua sendo uma troca, uma negociação, mas é também uma espécie de desafio na medida em que os valores se tornam fugidios e dificilmente mensuráveis. Isso porque o contrato, que é um acordo abstrato entre duas partes, cede lugar ao pacto, que é uma relação de cumplicidade (e não de acordo ou convenção). Baudrillard (2007, p. 14-15) nos auxilia a compreender esta lógica do pacto:

“…as coisas não se trocam nunca diretamente umas pelas outras, mas sempre por mediação de uma transcendência, de uma abstração. (…) Poderíamos ver neste [tipo de troca] uma imagem de certas modalidades da linguagem poética, em que as trocas entre palavras – e a intensidade de prazer que proporcionam – se operam fora de sua mera codificação, aquém ou além de seu funcionamento em termos de valor de significação”.

Este tipo de negociação mediada pelo pacto é chamado por Baudrillard de “troca simbólica”. O autor também considera que esta troca simbólica é mais autônoma e criadora, possuindo uma lógica própria que antecede a lógica dos discursos: não há valores fixos, não há um sistema unidirecional de equivalências e, sobretudo, não há uma nítida separação entre sujeitos.

Neste sentido, parece-me que o Design está muito mais interessado nesta troca simbólica, pela qual as pessoas se comunicam através de objetos e imagens, do que nas pessoas em si e nos discursos que as definem enquanto sujeitos (valores, princípios, ideologias). Ou seja, o papel social do Design é antes de tudo simbólico.

O Design não se abstém de discursos ideológicos, pelo contrário, ele já está dentro deles, pronto para ser negociado. Significa que as trocas sociais mediadas pelo Design não são imediatas – não podemos ir direto aos discursos –, mas são justamente mediadas por um elemento ambíguo, transversal e não mensurável em termos de equivalência.

Particularmente, confesso que nunca me interessei tanto pelos discursos ideológicos em si, mas sim por aquilo que eles escondem, aquele algo que permite que as trocas sociais permaneçam inesgotáveis. Qualquer discurso se esgota e se restringe na valorização que lhe é dada, mas há sempre algo afetivo no discurso que o preenche e o esvazia simultaneamente.

Talvez devêssemos, no Design, inverter o ponto de vista do discurso: não nos comunicamos por meio dos discursos, tomando como referencial um equivalente geral em comum, mas a comunicação dá suporte aos discursos, como um pacto afetivo que permite trocas diversas. Isso implica que o Design não é uma forma de discurso, mas antes uma maneira de articular discursos através de elementos simbólicos que, em si mesmos, não têm preço.

Referência Utilizada:

- BAUDRILLARD, J. Senhas. Trad. Maria Helena Kühner. 2. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2007.

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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.