
Filosofia do Design, parte LXX – Design, máscaras e olhares
postado por Marcos Beccari
“Um indivíduo vale pelo que ele é e não pelo que ele tem”, dizem por aí. Mas o que é um indivíduo em si mesmo? Um ser inconstante e contraditório que muda a toda hora de humor e de intenção. O que define quem somos é, antes de tudo, um discurso intersubjetivo: não sou designer porque “sou designer”, mas sim porque as pessoas me enxergam assim.
Então seria mais sensato dizer: um indivíduo vale por aquilo que os outros veem nele, e não por aquilo que ele pensa que é. Definimos o que os outros são e somos definidos pelos outros – o “eu” é aquele a quem se diz “você”. Sob este viés, podemos pensar no design (objetos e imagens) como sendo um ponto de intersecção onde as relações entre-sujeitos se cruzam e do qual resultam – um álibi de nós mesmos.
É seguindo este raciocínio que Baudrillard (2008) nos revela que os objetos atuam como um espelho perfeito: não emitindo imagens reais, mas aquelas por nós desejadas. “Eis por que os objetos são investidos de tudo aquilo que não pôde sê-lo na relação humana” (op. cit., p. 98). O design então acaba preenchendo certa ausência na integração intersubjetiva daquilo que somos: possuímos, consumimos e desejamos sempre a nós mesmos.
No entanto, é difícil saber de onde vem a ausência inicial, o vazio que precisa ser preenchido: dos objetos ou das pessoas. Por conseguinte, não sabemos se design é uma questão de atribuir significado às pessoas ou de absorver os significados delas. Por via das dúvidas, projetamos significados diversos para não corrermos o risco de um vazio não preenchido.
Temos medo do vazio. É mais fácil, por exemplo, ir numa locadora já sabendo o filme que você quer alugar, ou ir num restaurante já sabendo o prato que você vai pedir. Caso contrário, corremos o risco de passar horas escolhendo um filme ou vendo o cardápio. Gostamos de ter opções, mas ter que escolher entre uma coisa e outra nos coloca de frente ao vazio.
O fato é que, se os objetos sempre dizem algo sobre as pessoas, então há alguma relação entre o vazio e o que as pessoas querem. Assim como a intenção pode se tornar uma causa para o acaso (e vice-versa), o vazio pode se tornar combustível para o querer. E se tememos o vazio, é porque não sabemos exatamente se, o que, como e por que queremos.
Em todo caso, precisamos do olhar do outro, alguém que testemunhe e dê sentido ao que queremos. O que queremos em si, pois, importa menos que a negociação interpessoal de significados e intenções. Em seu ensaio “Xamãs e dançarinos mascarados”, Flusser nos auxilia a entender este processo através do conceito tribal da máscara:
“…o Eu não é apenas o que usa a máscara, mas também o designer das máscaras dos outros. Eu realizo-me não só quando danço com a máscara, mas também cada vez que, junto com outros, projeto máscaras para outros. (…) O que é certo é que posso projetar máscaras só enquanto uso uma máscara” (FLUSSER, 2010, p. 120).
A finalidade da máscara não é apenas esconder o vazio através da aparência, mas também preencher o abismo que há entre o que queremos ser e o que os outros querem que sejamos. Deste modo, as máscaras são intercambiáveis e sobreponíveis, tanto quanto nossas relações com as pessoas. Trata-se de um jogo de articulações simbólicas que não se reduz à pura ilusão e nem à liberdade plena de ação, mas se traduz em discursos que nos desviam do vazio.
No âmbito do design, esta dinâmica simbólica se torna ainda mais complexa: não projetamos apenas máscaras para as pessoas, mas antes os olhares sobre as máscaras. Não projetamos o vazio (isso seria impossível), mas aproveitamos dele para modelarmos novas formas de querer.
Dito de outra forma, designers não trabalham apenas com a aparência, mas principalmente com atitudes e formas de comportamento que podem se tornar mais “reais” do que as próprias pessoas. Nosso ofício é, portanto, “fazer aparecer” – que significa, para as pessoas, “parecer ser”, algo muito mais real do que simplesmente ser ou parecer.
“A Psicomagia apoia-se fundamentalmente sobre o princípio de que o inconsciente aceita o símbolo e a metáfora como fatos reais. Os magos e os xamãs das culturas antigas já sabiam disso. Para o inconsciente, agir sobre uma fotografia, um túmulo, uma peça de roupa ou qualquer outro objeto íntimo (um detalhe pode representar o todo), é o mesmo que agir sobre a pessoa real” – Alejandro Jodorowsky, A dança da realidade (São Paulo, Devir, 2009, p. 303).
Referências utilizadas:
- BAUDRILLARD, J. O Sistema dos Objetos. Trad. Zulmira Ribeiro Tavares. São Paulo: Perspectiva, 2008.
- FLUSSER, V. Uma Filosofia do Design: A Forma das Coisas. Trad. Sandra Escobar. Lisboa: Relógio D’Água, 2010.
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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.