Filosofia do Design, parte XLIII – o Design Conceitual

postado por Marcos Beccari

“…o fundo do poço da vergonha foi atingido quando a informática, o marketing, o design, a publicidade, todas as disciplinas da comunicação apoderaram-se da própria palavra conceito e disseram: é nosso negócio, somos nós os criativos, nós somos os conceituadores!” (DELEUZE; GUATTARI, 2004, p. 19).

Os termos conceito e conceituação são recorrentemente utilizados por nós, designers. Embora haja ampla bibliografia sobre isso, trata-se de uma confusa etapa projetual que ora é localizada como ponto de partida, ora como parte do processo e ora como justificativa posterior. De todo modo, há sempre a necessidade de se representar ou ilustrar um conceito, como se fosse uma espécie de produto à parte, um tipo de aplicação e objetificação da criatividade em algo que possa ser vendido e utilizado de maneira eficaz.

Mas, afinal, o que é um conceito? É possível argumentar, por exemplo, que todo conceito depende de outros conceitos para ser confirmado ou contrariado, chegando à conclusão de que, em última análise, não há nenhum pré-conceito que determine o próprio conceito de “conceito”.  Por outro lado, também podemos partir do pressuposto de que todo conceito em si é algo óbvio e evidente, fala por si só, não havendo a necessidade de ser criado e definido.

Particularmente, não acho que conceito seja um fato dado ou uma criação humana, mas sim as duas coisas ao mesmo tempo. “O que depende de uma atividade criadora livre é também o que se põe em si mesmo, independentemente e necessariamente: o mais subjetivo será o mais objetivo” (op. cit.). Ou seja, um fato concreto e um pensamento abstrato deixam de ser ideias distintas para se tornarem encadeamentos inseparáveis através dos conceitos.

Estamos o tempo inteiro pensando e justamente por isso ficamos angustiados com aqueles pensamentos que escapam a si mesmos, com aquelas ideias fogem e se perdem no esquecimento.  Então tentamos dominar as ideias, esboçando-as em conceitos, como uma luta interminável contra o caos de nossa sapiência. Logo, os conceitos são sempre provisórios e intercambiáveis, abarcando uma pluralidade de pensamentos, uma convivência de ideias, diálogos e múltiplas lógicas.

Seguindo este raciocínio, Gilles Deleuze e Félix Guattari definem a filosofia como sendo a atividade humana de criar conceitos. Além da filosofia, haveria mais duas formas distintas através das quais o pensamento se revela criativo: a arte e a ciência. Enquanto o filósofo produz conceitos, o cientista produz funções e o artista produz percepções/afetos. Deste modo, a arte e a ciência não podem ser substituídas pela filosofia (que igualmente não pode substituí-las). Ao invés disso, essas três potências se complementam em uma relação de interdependência, tornando-se cada vez mais criativas.

Necessário esclarecer que estou adotando um discurso contemporâneo (com forte influência de Nietzsche), caracterizado pela ruptura com a exacerbação do racionalismo na modernidade, isto é, contra a ideia de que a filosofia e a ciência devem ser sistematizadas em um pensamento fechado, lógico e racional (como em Hume, Kant e Wittgenstein). Isso porque, retornando ao Design, geralmente pensamos de maneira ainda sistemática na medida em que confundimos conceito com noção, definição ou representação mental.

Partimos de um problema a ser resolvido, ou seja, de uma pergunta a ser respondida. Então recorremos a definições que respondem à pergunta, buscando assim uma solução direta, imediata e definitiva para o problema. Para Deleuze e Guattari, tal dinâmica paralisa o pensamento, cessando seu movimento criativo. O conceito, ao contrário, se articula em torno do problema que, por sua vez, nunca é resolvido por completo.

Não se trata de um ato de pensamento (como supõe a semiótica), nem de um produto do pensamento (como deduz a gestalt), mas das duas coisas ao mesmo tempo. Mais do que isso, o conceito é uma experiência filosófica que, no Design, nos impede de eliminar problemas ao passo que nos motiva a atravessá-los. “Mesmo as pontes, de um conceito a um outro, são ainda encruzilhadas, ou desvios que não circunscrevem nenhum conjunto discursivo. São pontes moventes” (DELEUZE; GUATTARI, 2004, p. 35-36).

Referência Utilizada:

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é filosofia? 2. ed. Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Munoz. In: Coleção Trans. São Paulo: Editora 34, 2004.

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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.