
Filosofia do Design, parte XLIV – o Design Ortodoxo
postado por Marcos Beccari
Tanto no meio acadêmico quanto no meio profissional é bonito falar em abertura, liberdade de expressão, convivência de ideias, trabalho colaborativo, diálogo, etc. Como se não houvesse trincheiras ideológicas, panelinhas e preconceitos no Design. Eu, por exemplo, tenho preconceito contra quem acha que não tem preconceitos. E também contra aqueles que se acham “revolucionários” por serem homossexuais, vegetarianos, nerds e blasés. Tipo, it’s so last century… sorry.
Mas se não parecermos éticos (seja lá o que for ética), não pega bem. Temos que apoiar a sustentabilidade, fingir que somos contra a indústria cultural (mas sempre bem vestidos), falar inglês para poder falar de inovação e design thinking, esconder qualquer carência afetiva-financeira-intelectual e disfarçar a nossa falta de assunto. Contudo, você é especial porque tem a cabeça aberta, ou seja, a mesma alienação de quem tem a cabeça fechada. A diferença é que você diz “tanto isto quanto aquilo” e o bitolado diz “ou isto ou aquilo” – ambos sem nada questionarem, ambos caindo na armadilha da qual pensam ter escapado.
Talvez seja por isso que ninguém questiona se a nossa profissão precisa ser de fato regulamentada. Afinal, o mercado malvado não valoriza os designers que, coitadinhos, são explorados e mal pagos. “Com a regulamentação, porém, seremos pessoas melhores, mais respeitadas e mais felizes!” (Ursinhos Carinhosos, séc. XV a.C.). Vou contar um segredo, mas não conte pra ninguém: a vida também é cruel para os profissionais regulamentados. Sempre haverá a possibilidade de você perder o emprego e sujeitar-se à informalidade, pouco importa seu diploma, sua cabeça aberta, sua ética ou sua liberdade de expressão.
Um artista não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de artes. Um filósofo não é necessariamente alguém que cursou uma faculdade de filosofia. Mas um médico, um engenheiro e um advogado são diplomados. E parece que isso machuca a autoestima dos designers. Logo os designers, que superam qualquer preconceito, que são tão seguros de si mesmos, que não disputam atenção entre si e que conhecem muito bem sua própria história… Perdoem-me o sarcasmo, mas não vejo outra forma de introduzir este assunto.
Acho que deveríamos sim ter um espaço em concursos públicos. Mas também temos o direito de fazer design sem ter que passar pela universidade. Se o design é (ainda) uma atividade humana, o estudo acadêmico em design deveria ser uma escolha, não um requisito. Caso contrário, cria-se uma nova ortodoxia: o ensino se torna um mero treinamento profissional, a universidade, um passaporte obrigatório, o diploma, uma indulgência, e o design, um conjunto de regras e diretrizes. Note que essa ortodoxia já existe – não precisamos de uma nova.
O curioso é que nunca houve uma verdadeira disputa interna entre os designers, com uma revisão crítica de suas próprias ideias, doutrinas e teorias. Pode ser que, por um lado, os designers não se levam tão a sério quanto parecem levar a regulamentação. Por outro lado, ainda há um respeito ideológico que, em outras áreas, não mais existe. Esse respeito permite que os diferentes modos de pensar e fazer design se desenvolvam sem serem encarados como contradições. O que me parece contraditório, todavia, é lutarmos por uma formalização federal que estabeleça o que é e o que não é design.
Para o filósofo Clement Rosset (2002, p. 32), “uma verdade incerta é também e necessariamente uma verdade irrefutável: a dúvida não podendo nada contra a dúvida”. Ou seja, somente aquilo que ainda não foi definido e formalizado é singular, não se deixa representar por nenhum substituto, não permite nenhum duplo e, portanto, é incontestável em si mesmo. Claro que, ao assumirmos esta incerteza no Design, corremos um permanente risco de angústia intolerável, impossibilitando qualquer tentativa de definição precisa e de sistematização lógica. Ao mesmo tempo, contudo, a existência do Design permanece viva.
Noutras palavras, acredito que a nossa relação com aquilo que fazemos é muito mais importante do que aquilo que fazemos em si. Essa relação só é possível quando questionamos e duvidamos de nós mesmos. A regulamentação do design não vai facilitar a relação que você tem com o design – e a grama do vizinho continuará sendo mais verde. A diferença é que, sem a regulamentação, ainda podemos escolher nossos vizinhos.
Referência Utilizada: ROSSET, C. O Princípio de Crueldade. Rio de Jaeiro: Rocco, 2002.
Leitura Complementar: Diga não a reserva de mercado, de Alexandre Van de Sande | Hipster Hitler, um retrato da redundância designer-hipster | 9000, o Banksy do Design | Look at this fucking hipster, fucking designers.
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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.
Marcos, nunca li nada que conseguisse traduzir com tanta exatidão o que penso a respeito dessa questão.
Ah, também sou mega-preconceituosa com relação a várias coisas….eheheh…principalmente quem tem por hábito colocar a culpa de suas agruras e dificuldades em coisas abstratas como “o sistema”, “o mercado”, “a violência” e por aí vai.
Parabéns e obrigada por compartilhar suas ideias. Não conhecia seu texto, muito bom mesmo!
Correção: foi postado por Rafael Gatti mas quem assina é o Marcos Beccari. Ou é assim mesmo?
Obrigado Lígia, seja muito bem vinda em minha coluna. Thomas, pelo que eu saiba é o Gatti que posta mesmo. Abraços
Sinta-se aplaudido!
Olá Thomas, como está sendo aí em Portugal? Sobre aquela informação “postado por”, houve uma engano na hora da publicação sim. Na verdade faço a parte operacional mesmo, mas o nome lá de cima tem que ser do autor. Estava errado, descuido meu, desculpem!
Ótima reflexão!
Parabéns!! Escreveu bem. Acabo de me formar e sinceramente eu sinto que “pega mal” ser Designer. Principalmente no meio industrial, que é minha área. Quando comecei a me vender como Desenhista Industrial, com um cunho mais técnico, as coisas mudaram radicalmente. Tanto nas ofertas de trabalho quanto nos salários. Parece que a indústria enxerga o designer como um artista, e faz um favor ao deixá-lo mostrar sua arte maquiando seus produtos.