Filosofia do Design, parte XXII – Projetar é Conspirar

postado por Marcos Beccari

Pra mim, designer é alguém que não gosta de rotinas. Se você gosta de rotinas, uma vida segura, calma e previsível, você não é designer. Apoio-me na afirmação de Giulio Carlo Argan (2000) de que projeto (e, portanto, Design) é toda tentativa do homem de determinar conscientemente seu próprio futuro. Mais ainda, com a definição de atividade não-rotineira que Terence Love (2002) atribui ao Design e que, deste modo, nos compromete com a novidade. Isso significa deixar de lado qualquer tipo de certeza e nunca mais dormir em paz.

Se você é assim, sua vida é um labirinto sem um fio de Ariadne, repleto de bifurcações e desvios imprevisíveis. Nada é o que parece ser. Ainda assim, precisamos nos guiar de alguma forma – então nós conspiramos. Conspirar é natural do ser humano, é como uma autodefesa contra um mundo injusto: quando somos demitidos, tiramos uma nota baixa, perdemos a namorada… é uma forma eficiente de ver sentido onde não tem. Este, pois, é o verdadeiro ofício do designer: convencer o maior número de pessoas (usuários) de que sua conspiração (projeto) é verdadeira. Trabalhar com isso nos faz assumir uma conspiração mais interessante: não existem falsas conspirações.

Por mais absurda e inacreditável que uma conspiração possa parecer, ela se torna real no momento em que ela é dita. A partir de então você passa o resto do seu dia paranoico, tentando solucionar um problema que você mesmo criou. Na medida em que você encontra uma solução, fica mais fácil das pessoas acreditarem em você, podendo fazer dessa conspiração um verdadeiro mito. Este é o grande objetivo do Design, criar mitos. Nosso ganha-pão é a eterna desconfiança que as pessoas têm de que alguma coisa está errada, oculta, mas ninguém deveria saber disso.

Por isso devemos desconfiar de nossos professores e de tudo aquilo que lemos e ouvimos, atentando-nos às ideias sugeridas nas entrelinhas e não explicitadas. Não é conspiração dizer que há uma ordem preestabelecida, formada por aquilo que querem que você acredite. A história, dizia Foucault, é escrita pelos vencedores. O conhecimento também. O pragmatismo, a semiótica e o marketing são apenas conspirações bem sucedidas. Mas poucos são os designers iniciados, isto é, que sabem do verdadeiro esquema de que na verdade não existem verdades.

Pois sou um herege: quebrarei com o sigilo secreto do Design ao dizer que somos nós que inventamos o que é certo ou errado, o que é ergonômico, funcional ou belo. Se eu for preso, exilado ou sumir misteriosamente do mundo, vocês já saberão o porquê – conspirar é sempre perigoso, sobretudo para quem conspira. Nós inventamos nossos próprios inimigos: quanto mais poderoso for nosso vilão, mais seremos heróis. Se você acredita na Sustentabilidade, você é um super-herói que luta contra toda a humanidade. Mas se eventualmente você falhar, com um projeto nocivo ao meio ambiente, por exemplo, a culpa é sempre deles. Eu e você estamos com um problema e, com certeza, alguém (que não nós) é responsável por isso.

Acho que “conspirologia” deveria ser disciplina obrigatória nos cursos de Design. Estudaríamos as grandes conspirações como Atlântida e Lemúria, o Santo Graal, os homens de preto, a raça reptiliana, etc. Entenderíamos finalmente que conspirar é a essência do Design: a natureza não é boa o bastante para acomodar o meu traseiro (ela é malvada) e, por isso, vou subverter o sistema e projetar um totem ancestral chamado “cadeira”. Para isso, vou recorrer aos evangelhos apócrifos da Bauhaus, uma antiga sociedade secreta que simulou sua própria extinção em 1933 para agir sem ser importunada. Mas temos que ter cuidado para não espalhar este segredo, caso contrário eles virão atrás da gente, pode ter certeza.

O problema é que quem cria a conspiração é sempre destruído por ela. Na medida em que ela ganha evidências e adeptos, ganha também vida própria, fugindo do nosso controle. Bem, o aviso está dado, não existe saída: fatalmente você descobrirá que o mundo é um sonho, uma ilusão ou simulação da qual temos que nos libertar para chegar a verdade. O fim é a transcendência espiritual ou a psicose, depende do ponto de vista. Onde há gente há conspiração, e onde há conspiração há uma grande verdade oculta. Este mundo é dos que acreditam nisso. E o Design é a maldição daqueles que sabem disso.

“As pessoas acreditam. É isso o que elas fazem. Acreditam. E depois não se responsabilizam por suas crenças; fazem coisas aparecer e depois não acreditam nas aparições” (Neil Gaiman, Deuses Americanos, 2001).

Referência Utilizadas:

- ARGAN, G. C. Projeto e Destino. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Editora Ática, 2000.

- LOVE, T. Constructing a coherent crossdisciplinary body of theory about designing and designs: some philosophical issues. In: Design Studies, 23, 2002, p. 345–361.

* texto inspirado no livro “Conspirações: tudo o que não querem que você saiba” de Edson Aran (São Paulo, Geração Editorial, 2008).

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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.