Filosofia do Design, parte XXVI – Articulação e Criatividade

postado por Marcos Beccari

“Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades.” [Jorge Luis Borges em Ficções, 1944, p. 92]

Qual a relação entre a criatividade e o tempo? Em primeiro lugar, o tempo é uma criação humana. E como grande parte das criações humanas, baseia-se no princípio da distinção: você distingue o que veio antes e o que veio depois. Note que essa distinção não é natural, mas sim uma gambiarra da sua mente para compreender o mundo. Contudo, este truque se desfaz quando você se questiona: o que antecede a distinção?

Para respondermos isso, é necessário uma outra distinção. Cientificamente, sabe-se que há basicamente dois pontos de vistas para compreendermos os fenômenos. A concepção mecanicista, na qual a tradição positivista se baseia, enxerga todo e qualquer fenômeno como sendo resultado de uma causa, considerando a existência de determinados elementos imutáveis que alteram as relações entre si segundo determinadas leis fixas (como o tempo, por exemplo). Por outro lado, há a concepção finalista (ou energética, teleológica, quântica, etc.) que entende os fenômenos partindo do resultado para a causa, considerando uma espécie de “energia” que se mantém constante e que produz um estado de equilíbrio no seio das mutações que os fenômenos manifestam.

Embora este segundo ponto de vista também possa ser considerado truque ou gambiarra, parece-me mais sincero na medida em que assume seu caráter abstrato e, portanto, humano. A preocupação não recai sobre as substâncias físicas em si, mas em suas relações. Não parte da ideia de que as substâncias se movimentam no espaço/tempo, mas da ideia de que o próprio movimento determina a potencialidade das coisas. Entretanto, somente uma terceira forma de concepção, simultaneamente mecanicista e finalista, seria capaz de responder o que antecede o princípio da distinção humana.

Trata-se da concepção unitária, tal como descrita por Jung e Neumann (apud JAFFÉ, 1995): o ainda-não-separado ou o novamente-unificado, uma realidade não condicionada aos limites da consciência humana. Não significa, porém, uma realidade externa ao ser humano – trata-se de uma perspectiva neoplatônica sobre a unidade entre alma e matéria. Mas como tal realidade poderia tornar-se cognoscível para nós? Para Jung, os alquimistas medievais conseguiam canalizar na matéria (pelo menos simbolicamente) a polarização e o desdobramento da psique (alma) que é, em si, unificada. É como se as coisas reais e aquelas que imaginamos fossem dois lado de uma moeda, isto é, formam uma mesma realidade.

Mas como afinal o designer pode ser criativo sem o princípio da distinção? Ora, atuando na lógica unitária; não de modo direto, mas indiretamente através dos símbolos. Um símbolo expressa uma realidade impessoal e atemporal que recebeu do designer uma forma pessoal e temporal. Em outras palavras, é quando o eterno e universal funde-se com o individual e único. Cada situação ou briefing aponta para um caminho de ação, como uma semente de orquídea que não pode germinar outra flor que não seja orquídea. Quando o designer reconhece esta “fase embrionária”, torna-se parcialmente autor do seu próprio entorno.

Isso implica menosprezar a relação meios/fins, voltados a uma meta, frente ao condicionamento imanente do “potencial da situação”. O designer não tem um papel ativo ou passivo nisso, apenas procura se ajustar à situação para mantê-la viva e em movimento, atuando como um “agente de reação” que, tal qual um alquimista, somente articula uma experiência simbólica. Devemos ressaltar, na concepção aqui proposta, a carência de liberdade do indivíduo criador: qualquer tipo de distinção é anulado, inclusive a noção de tempo, frente a um a priori inconsciente que, no processo de criação, se impõe à consciência do designer. No entanto, essa imposição é apenas o contrário da liberdade individual que, por sua vez, acontece por compensação.

Para que a articulação simbólica prossiga, em sua imanência, o indivíduo criador deve ser atuante: o símbolo chega quadrado mas permanece redondo. Isto é, torna-se compreensível mas, no fundo, se mantém incompreensível. Deste modo, um articulador simbólico é aquele que sabe lidar com esse efeito compensador, de modo que a falta de liberdade resulte em sua autoria e autenticidade. Significa inscrever sua individualidade na trajetória natural das coisas para que, submisso à imanência delas, o resultado pretendido ocorra de forma autônoma. A eficácia do resultado, pois, se manifesta quando ele ainda não se realizou. Assim, o ato criativo deve parecer ausente para ser exercido.

Aquilo que no fundo a criatividade exige não é a criação em si, mas a recepção do desconhecido através da superação das distinções. Os opostos se unem em um sentido categórico que, à priori, não faz sentido. Logo, a criatividade aponta mais para uma fenomenologia da ambiguidade do que para uma pragmática do querer. Por fim, acredito que todo ser humano é potencialmente criativo. Contudo, para exercer essa criatividade é necessário superar (ou mesmo suportar) a tensão dos antagonismos entre a alma e o mundo. Afinal, não vejo diferenças significativas, por exemplo, entre o perecível e o eterno – este é potencialmente aquele e vice-versa, ou seja, ambos são indícios de um mesmo fato.

“Tudo que ocorre psiquicamente dentro do consciente talvez se explique de modo causal, mas a criatividade, cujas raízes estão no mundo imensurável do inconsciente, se fechará eternamente ao conhecimento humano.” [C. G. Jung em O Espírito na Arte e na Ciência, Ed. Vozes, 1991, p. 100]

Referência Utilizada:

- JAFFÉ, Aniela. O Mito do Significado. São Paulo: Cultrix, 1995.

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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.