Filosofia do Design, parte XXXIX – Sexo e Design

postado por Marcos Beccari

Eu já falei algumas vezes que Design é igual prostituição: uma profissão digna e respeitável (sem ironias) que exerce, antes de qualquer coisa, uma das mais belas atividades humanas. E não há nada de errado em cobrar por isso. O que me parece errado é transar com quem você ama e continuar acreditando que existe um propósito “funcional” para tudo. No entanto, assim como o Design, o sexo também pode ser pragmático: pode haver uma função ou utilidade (como procriação), sanar uma necessidade específica (carência ou stress), cumprir com determinados requisitos e métodos (anticoncepcionais, coito interrompido, ciclo menstrual) e até ser sustentável (sexo tântrico). E o que dizer sobre a masturbação ou a pornografia?

Para o psicólogo James Hillman (1989, p. 22), trata-se de uma “anestesia, como um tranquilizante enquanto você assiste TV”. Isso porque, se outrora a indústria pornográfica já esteve associada com as ideias de culpa, vergonha e fantasia, atualmente ela tem se tornado cada vez mais explícita, cotidiana e efêmera. Mas como isso se reflete em nosso comportamento e no design contemporâneo? Desde pequenos, somos treinados a saber, a alcançar e a fazer o que queremos fazer. Somos “independentes”, estimulados a caminhar com nossas próprias pernas e saber para onde estamos indo. Toda essa exigência, se não estiver relacionada diretamente com a pornografia e a masturbação, certamente favorece a famosa teoria freudiana da repressão do desejo sexual.

Leia este livro de Freud e sinta-se um maníaco. De fato, a tradição cristã-ocidental está enraizada em nossa cultura e ainda é predominante em nossa forma de encarar moralmente o sexo – por mais que possa manifestar amor ou paixão, o sexo é censurado o tempo todo, sobretudo na área do Design (como mostra este post do IdeaFixa). Mas ao contrário de Freud, creio que o sexo em si mesmo, simultaneamente afeto e pecado, parece algo místico, algo que não deve ser dito: dizer “eu te amo” é mais fácil do que “quero transar com você”. O sexo faz com que o amor seja tão obsessivamente concreto que sua inibição reforça o prazer e, ao mesmo tempo, faz dele um fantasma, uma ilusão, uma ficção.

Pois há também um aspecto prazeroso na impossibilidade. Há quase um êxtase na vergonha na medida em que nos tornamos mais sensíveis. Vejo que o sexo está muito mais relacionado a nossas fantasias, nossos medos e confissões do que àquilo que conscientemente necessitamos ou desejamos. No velho mito de Eros e Psiquê, a psique (alma) está sempre buscando pelo amor, enquanto eros (deus do amor) está sempre tentando encontrar a alma. Na verdade, “eros já está dentro da psique, pronto para pegar fogo. A psique é um material altamente inflamável” (HILLMAN, 1989, p. 194). Portanto, o sexo é onde o amor se esconde e vice-versa, ambos atrás de um muro feito de puro medo.

Este disfarce também é uma revelação, pois cada pessoa tem seu jeito particular de se esconder. Quem sabe seja este o denominador comum entre sexo e Design: esconder é apenas uma outra forma de revelar. Significa que uma pessoa que nunca escondeu nada em um projeto ou em uma relação sexual, não tem nada a revelar. Talvez por isso a homo/bissexualidade poligâmica, visivelmente crescente entre os designers, parece muitas vezes confundir-se com uma auto exposição ou uma autoafirmação sem, no entanto, valorizar a intensidade e beleza que há no escondido, naquilo que não está à vista de quem não quer ver – e isso também vale, igual e democraticamente, aos hetero-monogâmicos remanescentes.

Tudo isso porque eu acredito que qualquer projeto de design exige muito mais do que compreender a necessidade do usuário. É preciso uma constante abertura, que você se permita receber e se entregar ao seu usuário, deixar sua imaginação seduzir-se por ele, seduzindo-o e surpreendendo-o com sentimentos que estremeçam qualquer tipo de voto de castidade. Afinal, conforme Hillman (1989, p. 192), “a amor não é um fenômeno da pessoa, o amor é um fenômeno do espírito que agita a alma e gera imaginação”. E o sexo, assim como o Design, é uma forma de amar, ou pelo menos uma forma de imaginar um amor sem o qual nossos medos e angústias (ou projetos de Design) não teriam sentido de existir.

Referência utilizada:

- HILLMAN, J. Entre vistas: conversas com Laura Pozzo sobre psicoterapia, biografia, amor, alma, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura. São Paulo: Summus, 1989.

*este post foi inspirado pelo filme Attenberg, de Athina Rachel Tsangari (2010).

__________

Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.