


Design do improviso
postado por Rafael Gatti
Motivado pelos debates desenvolvidos em posts anteriores, gostaria de trazer à discussão mais um novo ponto de vista sobre o projetar: o dos objetos populares, concebidos de forma não acadêmica e produzidos de forma alternativa. Acredito que este seja um ponto interessante, pois se trata de um fenômeno situado nas fronteiras do design e muito ligado às questões de reutilização. Muito do que será apresentado foi baseado em estudos já realizados por Rodrigo Boufleur, inclusive recomendo a leitura da sua dissertação de mestrado “A questão da gambiarra: formas alternativas de desenvolver artefatos e suas relações com o design de produtos” que pode ser encontrada clicando aqui. (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16134/tde-24042007-150223) Sem dúvida o improviso tem forte relação com os fatores sócio-econômicos de uma população, porém o estudo deste fenômeno ainda permanece válido. Conhecer como as pessoas usam sua criatividade, talvez em sua forma mais pura, para driblar a escassez pode ser revelador. Muitos destes inventos populares podem até ter potencial para se tornarem inovações. Uma característica marcante, encontrada na maioria dos casos, é a ênfase na praticidade. A criação utilitária com o objetivo de solucionar um problema bem definido é o exemplo mais presente. O reaproveitamento é outra característica que se repete muito. Reutilizam-se as mais variadas e curiosas partes dos mais diferentes produtos. Aquele aparelho quebrado ou obsoleto é matéria prima para novos rearranjos. Acontecem também os famosos remendos e adaptações como o objetivo de alongar a vida útil de um determinado equipamento. Também é interessante notar que existe distanciamento de um formalismo gratuito, estes artefatos não são feitos para serem simbólicos. E – muito importante – nem sempre estas “geringonças” atendem a critérios de segurança e ergonomia, trazendo riscos ao usuário. No entanto as gambiarras são aceitas, utilizadas e até reproduzidas. As imagens ao lado são exemplos de produtos concebidos para serem produzidos em série, através da lógica do reaproveitamento. Temos a Lounge Chair, feita de rodas de bicicleta, de Andy Gregg para a Bike Furniture, uma mesa de centro/luminária construída a partir de um tambor de lava-roupas reaproveitado e uma poltrona que utiliza a estrutura de um carrinho de supermercado restaurada, estas duas últimas peças são comercializadas pela Restore. Será que estas soluções “profissionais” são boas respostas ao fenômeno do improviso? Cansada de ver sua pia entupida toda vez que preparava o arroz, a dentista Beatriz Zorowich inventou o tão essencial “lavador de arroz”. Com a ajuda do marido, grampeou duas folhas de papel alumínio em duas tigelas e as furou com a ajuda de um prego. O que nasceu como improviso tornou-se invenção patenteada em 1958 e até os dias de hoje vem sendo produzida industrialmente. Um grande leque de desafios pode ser definido a partir do fenômeno do improviso, questões como: padronização, individualização, obsolescência, descarte, reuso, relações de produção e consumo. Como podemos nos posicionar diante destas constatações? Os dois casos apresentados ilustram dois caminhos, talvez opostos, que ligam a solução improvisada com a solução seriada. Qual será a ideal? A mais honesta com o usuário? A mais responsável com os recursos naturais? Serializar o improviso, como no mobiliário de rodas de bicicleta, ou transformar o improviso em produto, como no lavador de arroz?
autor: Rafael Gatti, graduando em Design pela USP e idealizador do projeto Design Simples.
Acho estranho essa tentativa de trazer a gambiarra para a produção em série… é como tentar legitimar um movimento que acontece pela deficiência do design (tanto de projeto quanto de acesso a todos)…
Para mim, o caminho ideal da gambiarra é tornar-se insumo para o projeto definitivo, justamente como o caso do escorredor de arroz. Estudar a gambiarra é algo que ajuda bastante no projeto, e isso apresenta ainda mais um ponto muito importante para o projeto, e tão negligenciado: a observação do usuário…
fiquei muito feliz ao ler esse artigo! pois a “ideia” da gambiarra estava na minha cabeça há algum tempo.
Pois é a manifestação objetual da mais pura brasilidade cultural.
Concordo com você Eduardo, parece que é uma tentativa de criar algo “cool”.
Que legal Rachel, fico feliz com isso também!
Sem dúvida que a observação das soluções propostas por usuários para problemas rotineiros é uma grande fonte de informação para o designer. Isso pode representar o preenchimento de uma lacuna histórica do design brasileiro: o de projetar fora de seu contexto local.
Essa “serialização do improviso” representa bem uma tentativa do design de se aproximar do usuário e de suas necessidades (inclusive financeiras).
Porém, em minha opinião pessoal, creio que os caminhos descritos são opostos apenas na gramática, pois creio que têm o mesmo objetivo principal, ainda que exista interferência mais acentuada do design em um caso do que no outro.
design do improviso? que palavra mais feia… simplesmente não combinam.
que tal chamar de design vernacular?
Oi Danilo!
Eu num sei se penso a mesma coisa com respeito à seguinte frase:
“(…)creio que os caminhos descritos são opostos apenas na gramática, pois creio que têm o mesmo objetivo principal, ainda que exista interferência mais acentuada do design em um caso do que no outro.”
Não tenho certeza se os objetivos são os mesmos, viu? Pensando no fundamento da ação de ambos, vejo uma diferença diametral: a gambiarra pura é a manifestação mais latente do desejo pelo funcionamento, a ponto de a estética ser deixada de lado. Aqui, a função excede a forma, que possiu importância de terceiro calão.
Já no caso da apropriação da linguagem da gambiarra pelo design industrial (a industrializaçào da gambiarra), o que move o projeto é tornar o projeto estético com um apelo subjetivo focado na gambiarra como design popular. É tentar aproximar o design popular (ou no eufemismo que o Abel Chang quer), o design “vernacular”, à industria, mas de maneira Kitsch, sem um ponto que a justifique. É gratuito, a tal ponto que a gambiarra que se supõe presente alí em nada existe, nem mesmo virtualmente, é puramente ilusória.
Talvez a minha visão tenha sido pragmática demais. O objetivo, tanto da criação popular dita “gambiarra” quanto da produção do desin é de suprir uma necessidade funcional de um processo.
Assim, quando se desenvolve um produto, o mesmo será essencialmente para suprir uma necessidade (ainda que ela seja criada com o próprio produto).
O que acontece, no meu ponto de vista, é que o povo se pauta por 2 motivos para criar esses objetos: um deles é o custo de adquirir um produto industrializado; o segundo é o imediatismo, a necessidade do agora.
Já no design do produto, há muitas outras variáveis a serem consideradas, inclusive aspectos mercadológicos.
Por isso quando digo que os objetivos não são opostos, me refiro à produção em si, independente da inclusão de aspéctos estéticos ou mercadológicos. Inclusive a apropriação do popular pelo design é meramente um fator mercadológico, é produzir o produto mas dizer: “olha, a idéia foi sua”.
Achei interessante isso que falou no final… A industrialização não só se apropria da gambiarra, como ainda “cede” os créditos ao usuário… Bem legal essa conclusão!
Queria levantar aqui, se me permitem, a questão do quão ético seria essa atitude por parte do designer… Que acha sobre isso?
No meu ponto de vista o design do improviso é interessante e tem seu valor quando ele apresenta e retrata experiências anteriores do usuário.