
O design e a ética de valores
postado por eduardo camillo
Retomando os posts no Design Simples após um breve recesso, gostaria de trazer uma discussão que me pareceu interessante após uma pesquisa para um trabalho, e também que me pareceu relevante pelos comentários do post O Design do Improviso. E é justamente o tema da ética, como ela é vista hoje, e como foi vista em outro momento da história. E ainda tentar perceber como o design se insere nessas duas propostas de viver a ética.
A ética, historicamente, pode ser vista principalmente sob dois pontos de vista: uma ética moral natural do homem; e uma ética cultural, constituída por uma maioria (ou não) que decide o que é melhor ou não para uma pessoa. Esses dois moldes de ética são chamados, respectivamente, de ética dos Valores e ética Utilitarista. A primeira nasce com Sócrates, e desenvolve-se sobretudo com Aristóteles, e a segunda parte de Kant, e se desenvolve pela filosofia moderna (sim, a ética é uma disciplina da filosofia!). Vou tentar ser breve na descrição de ambas, e depois, fazer uma análise de caso para averiguar como cada uma se comportaria em determinada situação.
Aristóteles parte de um ponto importante na hora de propor sua ética: todo homem deseja ser feliz. Ser feliz parte da busca do bem, ou do que se imagina ser um bem (o que nos leva a concluir que podemos nos enganar quanto à qualidade “ser bom” de alguma ação). Alguém que furta um objeto, o faz porque acredita que esse ato lhe trará algum benefício, e, assim, a felicidade. No entanto, existem ações que são intrinsecamente ruins, como a do exemplo que dei. Se apropriar de algo que não lhe pertence em momento algum é bom, não é uma ação boa (vou fazer uma ressalva, pois já estive em discussões sobre isso, onde a pessoa argumentava que não existe ação boa ou ruim, pois uma ação é apenas uma movimentação física, ou seja, chutar uma perna de uma senhora de idade não é em si ruim, mas apenas um movimento pendular de um anexo corporal, que colide pontualmente num outro anexo corporal de outra pessoa, e que, por causa da ação e reação, além de poder causar algum incômodo ao membro que efetuou o impacto, necessariamente causará dor e inchaço na região do membro do sujeito passivo da ação. Resumindo, a maldade não está no ato, mas na intenção. Talvez o “chutador” tenha feito isso para tirar a perna da senhora de uma situação de risco, como de uma mordida de víbora. Concordo com o caso apresentado, mas o ponto é que aqui falamos de “chute”. Lá, falamos de “roubo”, e esse já possui na própria palavra e ação uma carga intencional que não varia: é pegar algo de alguém que não lhe é permitido pegar. Assim, vou tentar especificar melhor quando for trazer exemplos, e peço que o leitor não seja chato e tente entender o que estou propondo). Dessa forma, não estará sendo realmente feliz, pois a felicidade reside em fazer a bondade. Mais ainda, Aristóteles coloca que é fazer a bondade, pelo simples motivo de aquilo ser bom. Um exemplo: você ajuda um cego a atravessar a rua. Porquê? Reconhecimento público? Gorjeta do cego (esse talvez no caso de ser uma criança de 10 anos que está ajudando, e ela quer seu sorvete)? Não. Normalmente, é porque é bom ajudar um cego atravessar a rua. É um bem a ele, e, portanto, é bom que se faça. Assim, ser ético é “agir em vista ao bem”.
Coloca ainda Aristóteles que quanto mais se age em vista ao bem, melhor a pessoa é, ou seja, mais virtuosa ela se torna. Assim, no final das contas, adquirir virtudes traz o bem, e ser bom é fazer o bem. Concluímos então que a felicidade acaba sendo consequência de se tornar um homem virtuoso. O filósofo grego chega ao ponto de dizer que quanto mais virtudes um homem tem, mais ele é homem. Interessante, não? A felicidade do homem, assim, estaria em vivenciar sua condição de homem no grau máximo.
Olhando agora pelo outro lado, temos a ética utilitarista. Esta nasce com a filosofia moderna, onde a certeza passa a ser o parâmetro para se aceitar algo filosoficamente (e mesmo empiricamente, como acontecerá no positivismo. Mas tudo nasce com Descartes, e esse é um assunto interessante que valeria a pena ser aprofundado. Fica para outro dia, porque nem é o foco do blog, e nem os leitores terão paciência para ler sobre). Dessa forma, a bondade de algo deixa de ser um parâmetro, pois não é mensurável, mas apenas um “juízo de valor”, e o que é bom para um não necessariamente é para outro. Assim, a ética deixa de ser uma busca pessoal, passando a ser algo imposto, ou seja, um conjunto de regras que as pessoas devem seguir, pois, já que não há um possível parâmetro individual de atuação, devemos criar algo que venha a sobrepor-se a todos e ditar seu modo de ser (ou ao menos os limites desse). E, claramente, podemos observar que é daqui que nascem as grandes discussões contemporâneas, como aborto, eutanásia, legalização de drogas, etc., ou seja, deixa-se de olhar a real qualidade do ato, e passa-se a olhar o quanto tal situação compensa ou não ser feita. Daí o nome: a ética se faz pela utilidade de determinada ação para uma parcela da sociedade. Daqui, vemos um ponto interessante, que inclusive é algo que o direito traz como trunfo a si: a interpretação de leis. Para justificar determinado modo de agir, buscam-se furos nesses parâmetros propostos, de forma a poder sobrepor-se a essa imposição, e tirar algum “benefício” próprio perante a situação (o furo da Lei Seca é que o indivíduo que é pego para o teste do Bafômetro pode se recusar a fazê-lo, já que ninguém pode ser obrigado a gerar provas contra si mesmo. No entanto, é óbvio que a irresponsabilidade de dirigir embriagado ou alcoolizado não deixa de existir por causa de um furo na lei. Não é ela que vai impedir um possível acidente, mas o que impediria sim é uma consciência pessoal de que tal ato não é prudente, sendo a prudência uma das virtudes que Aristóteles nos propõe).
Discorrido brevemente sobre cada um dos pontos de vista, passamos agora para uma tentativa de estudo de caso. Vou deixar bem claro desde já que poderei ser tendencioso na minha análise, haja visto que, desde os parágrafos anteriormente apresentados, é claro o ponto que defendo como correto, que é justamente a ética de valores. Mas continuemos dessa maneira, e depois podem reclamar de mim pelos comentários.
Vamos supor um caso onde um estudante de design de uma universidade pública se vê na seguinte situação: trabalha numa agência de publicidade, e lá é encarregado de fazer a parte gráfica das campanhas. Aparece um job onde uma loja quer que seus clientes comecem a comprar mais por crédito, de forma a ganhar mais nos juros que cobram. O estudante se vê, assim, num dilema pessoal: ele deveria fazer parte de um projeto cujo objetivo acaba sendo o endividamento de outras pessoas? O problema, imagino, é claro. Vou tentar abordá-lo das duas visões éticas. Primeiro a utilitarista (vejam que não necessariamente ele pensaria dessa maneira, mas é uma possibilidade de solução para o problema, e que eu não acho que seria difícil que se chegasse a essa conlusão).
O estudante pode pensar que ele não seria o real responsável pelo endividamento dessas pessoas, já que quem escolheu e acatou o projeto foi a agência na qual trabalha. Além disso, fornecer crédito não é algo ruim, mas é uma possibilidade de facilitamento de pagamento por parte da loja. E se houver algum problema aí, é total responsabilidade da loja, que assim quer fazer. Além disso, ele é um empregado, está seguindo ordens, e não possui capacidade de decisão. Depois, não há lei para impedir que alguém ofereça crédito, mesmo que isso cause o endividamento da pessoa que compra, isso é lá com ela que não sabe administrar seus ganhos. Assim, para o estudante, não há um real problema ético aqui, e se houver, não recai sobre ele, mas sobre a loja.
Esse é um possível ponto de vista utilitarista. Já se formos olhar pela ótima da ética de valores, acontecerá de maneira completamente diferente.
O aluno deveria pedir para não fazer o trabalho pelos seguintes motivos: a falta de ética está em incentivar as pessoas a comprar por crédito (incentivar porque uma campanha publicitária é justamente para trazer ao subconsciente da pessoa um determinado produto ou serviço, e mostrar que ele é muito vantajoso, e, às vezes, o necessário para a felicidade dela. Obviamente que campanhas não são ruins, mas há modos errados de abordar e assuntos que não deveriam ser tocados e incentivados). Crédito de fato não é ruim, mas quando ele se torna o foco da loja, e não a venda de produtos, que é o que ela se propõe a fazer, acaba havendo um desvio de meta e de integridade que não condiz com algo bom (oferecer serviços e com isso lucrar), mas com algo possívelmente ruim (agir unicamente em vista do lucro, e quanto maior, melhor, independente do modo como se o consegue). Além disso, o aluno estuda numa universidade pública, ou seja, a sociedade como um todo investe nele para que, posteriormente, traga-lhe um retorno. Ao trabalhar num projeto como esse, estaria utilizando o que a sociedade nele investiu unicamente em benefício da loja, e não de todos. Mesmo aqueles que não conseguem administrar seu dinheiro estão investindo no rapaz, e ele estaria cometendo uma injustiça contra ele (sendo a justiça uma das virtudes que Aristóteles coloca). Assim, se agir em vista do bem, o rapaz deveria se afastar do possível mal que causaria à essas pessoas. A base para a ação do estudante, assim, estaria em ser justo, mais do que conservar seu emprego ou jogar nas costas de outro a responsabilidade por um mal.
Bom, como podem ver, fui tendencioso. No entanto, em se pensando em virtude, não haveria uma maneira diferente de encarar o problema. O utilitarista poderia chegar a essa conclusão, mas não pelo foco no bem, e sim, por exemplo, no foco de que endividar as pessoas acaba gerando menos mercado de compra, e assim, a economia pára de crescer (não sou economista, e posso estar falando bobagem). É interessante, no entanto, reparar que, mesmo sendo a ética utilitarista que hoje vigora, muitas pessoas ainda conseguem fazer suas escolhas pelo bem.
Espero ter trazido algo concreto para se pensar no que realmente constitui a ética, e também apresentar uma maneira diferente de entendê-la. Maneira essa que trariam benefícios não apenas pontuais, mas para uma integridade de caráter que repercutiria de maneira grandiosa em todas as ações das pessoas. E é justamente sobre o que é a ética.
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Eduardo Camillo K. Ferreira
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teorias de base do Design.
Gostei muito do embasamento teórico. Gostaria de ler mais estudos de caso. Aliás, será mais legal ainda se os leitores comentarem casos que vivenciaram. Dá pano pra manga…
São diversas as situações, acredito. Peguei uma que já conhecia, para facilitar, mas, se alguém quiser propor alguma, podemos ver como seria (começou a sessão descarrego de consciência).
Gostei do texto. Achei o exemplo que deu um pouco controverso, já que o crédito também pode ser encarado não como uma forma de endividamento, mas como uma oportunidade para se pagar a longo prazo. Por exemplo, no caso da compra de um imóvel (essencial para a vida prática, portanto), são poucas as pessoas que podem pagá-lo à vista e costumam recorrer ao aluguel. Desse modo, o crédito pode ser encarado de outro modo – como a oportunidade de se adquirir um bem, ao invés de investir o mesmo dinheiro no aluguel. Então acredito que a questão em jogo não é o oferecimento de crédito em si, mas o produto que está sendo oferecido e se a campanha parte de necessidades potencialmente reais das pessoas ou ilusórias (o que daria outra discussão, sobre o que é uma necessidade real). Para simplificar, pois entendi a sua intenção no texto, poderíamos dar o exemplo de um designer que é contratado para fazer embalagens de cigarros.
Perfeito, Ricardo! Achei que tinha escrito isso sobre a questão do “ser bom ou não” a respeito do crédito, mas deve ter ficado apenas no original (esse post é uma adaptação de outro texto, que está no Design em Artigos – http://www.designemartigos.com.br/design-e-etica-de-valores/ ). Vejo que entendeu que esse não era meu ponto, então, ótimo!
Quanto a esse outro exemplo, acho que é mais complicado que o primeiro… O ato de fumar em si não é um bem, e talvez nem um mal. Ser prejudicial à saúdo no grau que ele é (traz danos a longo prazo, e que não são garantidos, ou seja, não necessariamente desenvolve-se em câncer) o torna uma possibilidade de mal. O ruim dele, isso sim, é o vício, já que torna a pessoa que fuma dependente dele, e isso pode causar alterações reais em casos de abstinência (embora isso esteja mais para um desvio de auto-controle do fumante do que qualquer outra coisa). No entanto, doces também causam dependência, e nem por isso um confeitero pode ser considerado menos bom.
Um designer que projetaria uma embalagem para cigarro pode ser visto como antiético no sentido que produz algo para dar continuidade no vício de alguém. No entanto, os riscos de fumar estão sob única e responsabilidade daquele que fuma, e por não ser uma droga que cause transtornos psicológicos agudos no usuário (não a ponto de ser perigoso), não acho que seria antiético trabalhar numa embalagem para cigarro. Acho que mais antiético é criar meios de divulgar o ato de fumar, e criar algum tipo de aura ou ilusão entorno disso. O modo como se faz no Brasil, obrigando uma “anti-propaganda” nas próprias caixinhas, e colocando os fumantes nos seus devidos lugares, que é longe dos não fumantes, torna, a meu ver, essa questão “resolvida”.
Pra ser sincero, essa é a solução de um fumante para o problema… Vou pensar melhor nela, para ver se não estou sendo tendencioso…
Perfeito Eduardo. Dei o exemplo só para ascender a discussão mesmo. A propósito, eu também sou fumante. rs. Abraços.