
O designer solipsista
postado por Marcos Beccari
Tudo aquilo que consideramos “real” constitui apenas um irrisório grão de areia da superfície de uma enorme “casca” formada por um trabalho de aprendizado e conhecimento acumulado no decorrer de nossas vidas. Diante disso, somos convidados a interrogar, mas sem nada pressupor, o que há por detrás desta casca. Não é a realidade, não é o mundo em si, não são os fatos – estas ideias também fazem parte da casca. É simplesmente algo desconhecido.
Alguns filósofos defendem que é impossível enxergar o que há por detrás desta casca porque toda consciência é memória: “a estrela que vemos no céu talvez já tenha deixado de existir anos atrás”, ou seja, toda e qualquer percepção está atrasada em relação ao objeto percebido. No entanto, este raciocínio já pressupõe a existência de um objeto percebido e, portanto, já pressupõe que há um “mundo” por detrás da casca. A “memória” é entendida apenas como um indício, um rastro ou vestígio deste suposto “mundo”.
Mas o raciocínio anterior é útil para entendermos que a própria “casca” é um pressuposto contestável. Que a casca é a casca de si mesma. E que, portanto, qualquer ideia proferida acerca “do mundo”, qualquer teorização, não provém “do mundo”, mas provém de quem profere a ideia, provém de quem teoriza. Isso significa que não percebemos as coisas a partir “do mundo”, mas a partir da percepção em si.
A percepção antecede, cria e recria o objeto percebido.
Sendo assim, a percepção não é nem uma função sensorial e fisiológica, nem um fenômeno transcende e místico. Não há como sabermos o que é a percepção sem antes tentarmos percebê-la. A questão é que a forma de perceber prescreve a coisa percebida. Então aquilo que chamamos de “realidade” limita-se a esta forma de perceber, limita-se a nossas experiências.
“O visível à nossa volta parece repousar em si mesmo. É como se a visão se formasse em seu âmago ou como se houvesse entre ele e nós uma familiaridade tão estreita como a do mar e da praia. No entanto, não é possível que nos fundemos nele nem que ele penetre em nós, pois então a visão sumiria no momento de formar-se, com o desaparecimento ou do vidente ou do visível. Não há, portanto, coisas idênticas a si mesmas, que, em seguida, se oferecem a quem vê, não há um vidente, primeiramente vazio, que em seguida se abre para elas, mas sim algo de que não poderíamos aproximar-nos mais a não ser apalpando-o com o olhar, coisas que não poderíamos sonhar ver inteiramente nuas, porquanto o próprio olhar as envolve e as veste com sua carne. (…) Qual a razão por que, envolvendo-os, meu olhar não os esconde e, enfim, velando-os, os desvela?” (MERLEAU-PONTY, 1992, p. 128).
Em outras palavras, cada um de nós é como um peixe que não vê a água na qual está imerso e, por conseguinte, sua existência “real” (do peixe e da água) não passa de um ambiente de significados, redes de sentido. Tal concepção aproxima-se da ideia do solipsismo que, em linhas gerais, é a crença de que nada existe além de nós e de nossas experiências.
A primeira vista, esta parece ser uma ideia demasiado radical e idealista. De fato, é radical a premissa de que a única realidade cognoscível é o “eu”. Mas não é idealista. Idealistas são as distorções possíveis e infelizes a partir do solipsismo: somente eu existo e, portanto, somente eu comando o mundo ao meu redor, entre outras bobagens.
O solipsismo é, antes de tudo, ceticismo. Trata-se de uma contínua desconfiança do caráter “real” das coisas percebidas, incluindo a “realidade” do próprio “eu”. Partir do pressuposto de que existe o “eu” anula de antemão a possibilidade solipsista. Ser solipsista significa duvidar, sobretudo de si mesmo. A virtude básica do solipsista é a coragem de viver sabendo-se amaldiçoado pela desconfiança, pela possibilidade da mentira.
Acho que o filme “Sinédoque, Nova Iorque” (Charlie Kaufman, 2008) configura o melhor retrato desta condição solipsista. Não dá para descrever o filme sem assassiná-lo, mas a história é basicamente a seguinte: na tentativa de construir uma peça de teatro que retrate perfeitamente a realidade, o protagonista Caden Cotard passa anos em um galpão reconstruindo os cenários, os personagens e as experiências de sua vida.
Sinédoque é uma figura de linguagem (como metáfora ou alegoria) que toma a parte pelo todo. Assim as cenas são articuladas: sem aviso prévio, os fatos não são narrados sucessivamente, mas se atropelam. É como se os fatos em si não fossem suficientes para se construir uma experiência. A ordem dos fatos, os diálogos e seus respectivos significados são muito menos importantes do que a forma como foram vivenciados pelo protagonista.
Mas o grande traço solipsista deste enredo é o seguinte: Caden Cotard transforma sua própria vida numa ficção tentando com isso torná-la mais real. E ao chocar-se contra os limites da realidade, Caden percebe que não existe uma única realidade possível, mas que cada personagem constitui um mundo particular e, ao mesmo tempo, todos os mundos possíveis. Logo, muito mais do que perceber a realidade, nossas experiências interpessoais são capazes de criar e ampliar realidades.
Voltando ao raciocínio solipsista, quero pontuar algumas questões. Aquilo que chamamos de “realidade” é resultado de uma experiência subjetiva, isto é, uma circunstância afetiva individual. Esta “realidade”, portanto, pode ser vivenciada e compreendida somente dentro de uma esfera subjetiva. Mas quando “traduzimos” nossa realidade para outras pessoas, nossa realidade adquire novos significados, assim como a realidade das outras pessoas. E nesta troca interpessoal, estamos criando, ampliando e propagando diferentes realidades.
O designer é um articulador de realidades. Ocultar e ao mesmo tempo revelar uma ou outra realidade é o que fazemos enquanto designers. Designers solipsistas são aqueles poucos que conseguem traduzir sua realidade particular à esfera interpessoal. Para tanto, suas experiências devem ser ao mesmo tempo subestimadas e excessivamente valorizadas – eles sabem encantar as pessoas sem transparecer a menor pretensão disso.
Em todo caso, o fato é que nossa vida é completamente fictícia. Por um lado, isso implica que a qualquer momento podemos nos deparar com a ficção em si, com a mentira da realidade. Por outro lado, significa que podemos nos tornar “coautores” da realidade, participando das diversas ficções que estão sendo vivenciadas ao nosso redor, remodelando-as e ampliando-as. Há tantas realidades possíveis quantas ficções que contém realidades particulares.
Em nível epistemológico, o solipsismo implica que a realidade é feita de circunstâncias, relações e interações. Trata-se daquilo que Merleau-Ponty (1992, p. 188) chama de entrelaçamento ou quiasma e que define o pensamento filosófico: “compreender aquilo que faz com que o sair de si seja entrar em si e inversamente”.
Não importa saber se a “realidade em si” existe materialmente ou idealmente, não importa saber o que é a “coisa em si”. O que importa é entendermos como a realidade é vivenciada através de experiências intersubjetivas, preocupando-nos com o modo de olhar para as coisas. Afinal, não estamos isolados em nossos mundos privados e individuais, mas estamos participando de um mundo intersubjetivo, com a possibilidade de ampliá-lo.
Referência utilizada:
MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1992.
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Marcos Beccari é graduado em Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e aluno do programa de Mestrado em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Tem experiência nas áreas de Comunicação Visual e Artes Visuais. Seu interesse de pesquisa atual é Filosofia do Design, Teoria do Design e Estudos do Imaginário. É nosso convidado e irá postar semanalmente no blog.
O solipsismo é realmente uma coisa engraçada e uma “armadilha” quase inescapável… Sempre que penso no assunto, encontro milhares de motivos a aceitar o solipsismo como uma atitude filosófica legítima e, talvez, única completamente justificável. Mas, ao mesmo tempo, a evidência do outro e do mundo é de tal ordem e tão impactante que resisto a cair na “armadilha” do solipsismo, me contentando apenas em pensar que eu que não sou maduro o suficiente para compreendê-lo e, dentro de seu próprio sistema, mostrar seu erro.
Pensando na fenomenologia do próprio Husserl, ele fazia a distinção entre a “atitude natural” e “atitude filosófica”, que é, ao final, assumir uma posição realista (a atitude natural e o acesso ao mundo pelos sentidos). A “atitude filosofica” se serve a evitar os equivocos que tal “atitude natural” incorrem (ou podem incorrer).
Ainda assim, estamos até agora tratando do nível fenomenológico no seu sentido alemão, e recentemente li um texto com um olhar sobre a semiótica da cultura (da Irene Machado e Vinicius Romanini) que especulava sobre um Diagrama Ontológico, que assume justamente essas idiossincrasias perceptivas (nossos meios de acesso à realidade).
(tenho que ir, continuo depois! num quero perder esse texto… hahaha)
Pronto, voltei!
O que estava dizendo é que tal conceito de Diagrama Ontológico abarca a ideia de Unwelt, presente também em Husserl e fenomenologistas em geral, que é o ambiente cognitivo e perceptual de cada sujeito, mas por funcionar como diagrama, assume tal posição a demais individuos diferentes do homem, com sua própria Unwelt, e os coloca dentro de um plano geral, sendo que tais diferenças perceptuais existem, diferenciam-se e partilham desse mesmo plano geral e semiose (mas aqui, obviamente, estamos entendendo o signo e interpretantes como além da cultura, onde efetivamente tudo é signo).
Daí fiquei pensando hoje de manhã, e isso de alguma maneira traz um realismo intrínseco e que assumi uma “atitude solipsista” na medida que encaixa cada um dentro de seu próprio lugar nesse diagrama, sem excluir que tal atitude encontra-se prevista dentro desse panorama universal, que eles inclusive classificam como parte do processo evolutivo.
(o link para o artigo é esse: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/viewFile/7546/5411 )
Assim, ainda estou pensando no assunto, mas tal posição é uma resposta a esse fechamento do sujeito em relação ao mundo, e insere tal sujeito no mundo (quebrando o dualismo idealista de sempre entre sujeito e realidade e, ao final das contas, com a verdade também). Pensei também que, entender dessa maneira uma ontologia geral da comunicação funciona, e não nega a possibilidade fenomenológica de Husserl, oferecendo uma base à atitude natural e à atitude filosófica colocadas por ele, sem aparente oposição excludente (lembro que uma vez conservamos aqui no blog mesmo, e você tinha me dito que há uma incompatibilidade epistemológica entre a semiótica peirceana e a fenomenologia husserliana, e discordei à época mentalmente apenas por não ter subsídios para contra-argumentar, apenas intuindo que talvez não fosse tão assim).
Enfim, os pensamentos estão meio disconexos, mas achei que valia registrar para não perder o insight ou um possivel desmembramento, assim como para jogar na roda o que tava pensando.
Abs!
Massa Edu, obrigado pelos comentários! Pois é, o ponto em comum que eu identifico na semiótica peirceana e na fenomenologia de Husserl é que ambos ainda partem do pressuposto de que a “realidade” e o “mundo” existem anterior e externamente a nós, mesmo que haja uma influência recíproca. Ou seja, há uma divisão entre externo e interno, entre natural e filosófico, etc. O que me interessa em Merleau-Ponty é, ao contrário, seu ponto de vista solipsista, segundo o qual o “mundo” e a “realidade” não antecedem o sujeito que os percebe e aquilo que se considera “externo” é apenas um ponto de intersecção entre sujeitos. Em meu entendimento, tal postura aproxima-se mais do paradigma epistemológica contemporâneo, pois atribui forte ênfase ao subjetivismo.
Em todo caso, acho que deixei claro em meu texto que não estou defendendo o solipsismo clássico – ou uma “filosofia da imanência”, conforme propõem Guilherme Schuppe e Richard Schubert-Soldern. Este solipsismo, designado em meu texto como demasiado ingênuo, é sim extremamente idealista. O solipsismo de Merleau-Ponty é mais fenomenológico, mas não nos moldes de Husserl (muito menos na pseudo-fenomenologia peirceana). Parece-me que Merleau-Ponty é mais cético do que qualquer coisa: o pressuposto da existência (ontologia) anula a possibilidade solipsista.
Por isso ele atribui tanta ênfase à questão da experiência – não no sentido pragmático ou sensualista, mas no sentido circunstancial. Minha experiência não acaba na minha pele ou no alcance de minha percepção, mas grande parte dela “flui” do rizoma de todas as coisas e pessoas que eventualmente estão aqui e agora, ou seja, minha experiência é uma homeostase. E mesmo essa homeostase não atesta a existência do mundo e nem do “eu”, ao contrário, ela só serve para nos fazer duvidar disso tudo. Por vezes, esta dúvida significa um “upgrade” ou uma ampliação da própria experiência, mas nem sempre, e é precisamente nesse “nem sempre” que entra o processo de subjetivação, isto é, a possibilidade de atribuirmos sentido e valor à experiência, à homeostase, àquilo que nos faz duvidar. Abração!