O estigma totalizador do mercado

postado por Eduardo Camillo

Fazendo uma pequena referência a alguns posts do Marcos Beccari (inclusive no nome do meu post), pensei faz umas duas semanas sobre esse tema. Constantemente ele comenta em seus posts, e vi também num vídeo que ele produziu alguém comentando sobre, e também ouço, ainda hoje, muito disso na faculdade: “mas e o que isso vai me servir para o mercado”?

Confesso que me irrita ouvir isso… E muito (esse será um post um pouco rude)! Se há algo de pragmatista no mundo (e o pragmatismo no mau sentido, não da corrente filosófica), é isso. Esse insistente apontamento para o mercado é algo realmente muito chato e, devo dizer, ignorante. Basta pensar um pouco que se observa uma pequena série de erros nessa frase que se deveria ter vergonha de algum dia tê-la dito.

Primeiramente, observamos que se criou uma entidade chamada mercado, que nela podemos personificar qualquer coisa: cliente chato, imediatismos, projetos corridos, baixa remuneração, resultados, etc etc etc, (mas se esquece de atribuir outras, como demanda de inovação, possível crescimento de qualidade de projeto, e muito mais). Mas é mais que óbvio que é uma entidade inexistente. Há essa trama de relações que, de fato, jogam a tabela de preços do designer para baixo, e que num precisa ser formado para fazer design, entre muitas outras coisas. Mas é uma entidade inexistente na medida que não é alguém impondo suas regras a todos. Assim, generaliza-se casos pontuais nesse ser supremo chamado “mercado”. No entanto, vou deixar como está agora isso, pois é mais fácil para a vida dar nome às coisas, e mercado é o nome que se deu pra tudo isso, não cabe a mim desfazer essa bobagem.

Há no entanto um pequeno erro em dar essa força suprema ao mercado, que seria o grande balizador de tudo que deveríamos fazer na nossa profissão. E claramente se trata de um erro de foco: o foco do design é o mercado, ou é o projeto? Hum… Se alguém disser mercado, creio que deva ir fazer outro curso, pois num entendeu muito bem do que se trata nossa profissão. O foco do design é projeto, e assim, a base de análise deveria ser o projeto. Busca de problemas, questionar os paradigmas, pesquisas diversas, photoshop, illustrator, autoCAD, etc., são todas ferramentas que fazem parte desse grande bloco chamado projeto, e que pode ou não ser absorvido pelo dito mercado. Dessa mesma maneira, semiótica, filosofia, etnografia, gestalt, etc., também são participadoras do processo de projetar, e não de um pseudo-fim que é o mercado.

Não sei se estou sendo claro, mas o que eu quero chamar a atenção é para a autonomia de qualquer fazer humano desse bendito mercado, e há níveis de formação que são importantes para todas as profissões, e que compõem esse profissional, qualquer que seja ele. Eu poderia apontar inicialmente dois: o técnico, e o ontológico. Um médico não precisa estar num hospital ou sendo pago para receitar um remédio de dor de cabeça. E, da mesma maneira, seus dilemas éticos (ontológico) não são resolvidos pelas aulas de cirurgia toráxica (técnica). É inclusive interessante observar que há um elemento na ética médica que obriga que este preste socorro a qualquer um que esteja tendo um ataque na sua frente, independente de estar sendo pago ou não, ou de estar em horário de trabalho ou não (eu confirmei essa afirmação com um amigo médico). Se sou médico e estou correndo no parque, sou obrigado éticamente a prestar socorro a um senhor tendo um ataque cardíaco pendurado numa árvore. Há esse aspecto ontológico da profissão médica que é o salvar vidas. E no design, qual seria essa ontologia?

Isso demandaria muitos mais posts para responder. Antes, no entanto, é preciso que atentemos a isso: não há um balizador superior para nosso atuar como designers. Se há uma pergunta que deveríamos fazer, essa pergunta não é sobre o mercado, mas sim: e isso, que me ajuda como designer? Ou que me ajuda no projeto? Teríamos respostas muito mais fáceis, já que o designer serve ao projeto, e o projeto serve ou não ao mercado (mais uma vez, fica claro que o mercado não é esse ponto focal que devemos apontar). No que a semiótica ajuda no projeto? Essa resposta é fácil, mas se você apontar para o mercado, realmente, não há resposta, já que o referencial é algo tão abstrato quanto quando dizemos da “cultura brasileira”.

Tenho a hipótese de que quem se apóia no mercado para buscar tudo o que deve aprender, tem, na verdade, uma baita preguiça intelectual. Estudar algo menos fácil do que um vetor de illustrator demanda tempo e massa encefálica aplicada. Tentar utilizar com maestreza e foco as classes de sígno de Peirce em qualquer projeto demanda foco. Que é o contrário do projeto instantâneo de tentativa e erro, que vai vetorizando tudo que consegue, usando bastante o delete (ou o copy+paste, já que num podemos nos desfazer de qualquer idéia que aparece), até que se chega em alguma coisa bem bonita.

“Conceito? Bah, o mercado num quer isso”

Uso o exemplo da semiótica, mas poderia ser muitos outros. História do design, fenomenologia, a própria gestalt, fundamentos sociais, qualquer coisa que tenha a palavra “teoria” na frente, método de pesquisa (essa é outra palavra que não aparecer: método), epistemologia, etc… Já, se há um esforço por entender isso na nossa formação, ou no projeto, ou em qualquer coisa que seja da nossa área; mas não nessa entidade padrasta que é o mercado…

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Eduardo Camillo (twitter: @educkf) é graduando no curso de Design da FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e idealizador do Design em Artigos.