Quando a vida é um grande concurso

postado por Eduardo Camillo

Ou melhor, quando a vida do designer se torna um “necessário” concurso. Um amigo meu me passou esse site (fiquei até meio assim de disponibilizar aqui o link, já que ia ajudá-los a receber entradas, mas iria ficar um post pouco ilustrado. Assim, vai o link!).

http://www.crowdspring.com/

Confesso que esse site me deixou um pouco alarmado. Quando falamos de design, sempre reclamamos dos micreiros. Aqueles que compram seu corel, seu pentium, uma cadeixa giratória no quarto e se põe a “trabalhar” com design. Mas depois me acostumei com eles, já que percebi que eles atrapalham sim, mas são, digamos, necessários ao mercado (essa minha posição pode ser questionada, obviamente…). Necessários pois são aqueles que desenvolverão os trabalhos para quem num consegue bancar alguém que estudou e se dedica exclusivamente ao design. Eu não gosto da idéia, mas, como disse, me acostumei a ela (brevemente, não gosto da idéia pois estudar design não é aprender os programas, mas entrar num mundo de coisas que formam um conjunto extremamente coeso e que, na hora de desenvolver um projeto, visam muito mais encontrar e decupar os problemas de uma empresa, para depois propor um caminho, do que oferecer uma solução pronta que atende ao gosto do cliente. Aliás, talvez, o gosto do cliente deveria ser o que menos pesasse num momento como esse, já que não é para ele mesmo que irá comunicar, mas para o mundo, mas enfim… Estou esperando demais do ser humano).

Agora, quando falamos desse CrowdSpring, aí o negócio muda MUITO de figura… Pois, como vejo, o negócio passa a beirar o desonesto. Trata-se de uma plataforma onde as pessoas chegam com “Jobs”, postam seus briefings, colocam seu preço, e os designers de plantão mandam propostas. O site chega a informar que alguns clientes recebem mais de uma centena de propostas para seu projeto. Pois bem. Fica muito evidente que há uma gritante diferença entre os micreiros e isso (embora os micreiros certamente façam parte dessa plataforma): o micreiro de alguma maneira acaba interagindo com o cliente, e acontece um diálogo até que o trabalho esteja concluido (de forma mais ou menos eficiente). Aí não: chovem propostas, desde as melhores acabadas até as mais absurdas, e, como uma loteria, é escolhido um sem critério algum além da “carinha” do trabalho. Até existe um espaço para explicar o conceito do trabalho, mas estranhamente ele não costuma ser preenchido pelos “designers” (sinceramente, não vejo nada de estranho nisso…).

Outra diferença para o micreiro é que este normalmente recebe pelo trabalho feito. Já nesse site você não tem a menor garantia, ou seja, você simplesmente corre o alto risco de trabalhar de graça. Acaba, para tentar burlar esse perigo, desenvolvendo 7 ou 8 opções para aquele logo ou folder ou site, com base num briefing reduzidíssimo e possivelmente sem mostrar tudo o que um designer necessitaria saber para desenvolver o projeto.

Deixando a comparação com os micreiros de lado, foquemos apenas na atitude do site. Embora comparações com esse tipo de coisa soam normalmente forçadas, acho que ajuda a ilustrar: você entra num site, lista seus sintomas, e recebe em contrapartida mais de 100 diagnósticos diferentes de mais de 20 médicos diferentes para o que você tem. Assim, você escolhe a que mais lhe parece correta, paga os honorários do médico e toma o remédio.

Faz algum sentido?

Qualquer pessoa sensata responderia: claro que não! Pois é, e por que tanta gente adere a esse CrowdSpring? Outra comparação, mas menos forçada, seria um site desses, mas de assessoria de marketing. Você apresenta sua empresa, o que acha serem os problemas, e recebe 80 propostas de campanhas de marketing, escolhe uma ao seu bel prazer, paga aquele marketeiro, e as demais são descartadas. De novo, faz algum sentido? Ou, pelo contrário, quando se contrata uma assessoria de marketing, é justamente porque ele é um profissional especializado naquilo que faz, e que possui os requisitos para resolver seu problema, recebendo por todo o trabalho que desenvolver?

É justo de alguma maneira que as pessoas trabalhem de graça para algo que tanto pode não ser usado, quanto copiado por alguém que não tem nada a ver com o assunto? (nada me impediria de entrar nesse site, escolher uma proposta qualquer e, mudando um pouquinho, usar como logo da minha empresinha, oras bolas!). Será que estes que pedem esse tipo de trabalho topariam fazer o mesmo, mas na área que atuam?

Acho melhor terminar, pois eu adoraria passar mais 9 metros de post escrevendo sobre o assunto, mas acho que já me expliquei bem. As discordâncias aparecerão (ou não) nos comentários, e a gente continua conversando por lá.

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Eduardo Camillo K. Ferreira (twitter: @educkf)
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e idealizador do recém lançado Design em Artigos. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teorias de base do Design.