Uma mudança de paradigma

postado por Eduardo Camillo

No meio de agosto (2009) aconteceu na FAUUSP um breve ciclo de debates. A idéia do ciclo era que, através da fala de profissionais de diversas áreas das humanidades, os estudantes abrissem a cabeça para os problemas atuais da cidade a fim de compreendê-los de forma mais ampla do que apenas sob os olhos do design. Tentarei nesse post expor brevemente como a síntese da fala de alguns deles aponta para uma coisa: uma mudança de paradigma de projeto e de objetos de projeto. Dessa forma, obviamente, aparecerão inúmeras perguntas que não responderei agora, até porque não tenho respota, mas que, caso se tornem objetos de reflexão, levarão a respostas importantes à futura produção de design.

Irei focar principalmente nas falas da historiadora e crítica de arquitetura, Sophia Telles, e da designer e professora da FAUUSP, Cynthia Malaguti.

“O Design por pressuposto é social, público e geral. Para clientes anônimos e desconhecidos”. Assim começa a fala da Sophia, que poderia soar inadequada a muitos que a ouvirem fora do contexto. O contexto é uma palestra sobre a relação “Homem x Cidade”, tendo como tema de fundo “Fluxos”, tanto de pessoas quanto de informação e cultura. Enfim, algo que afeta muitas pessoas ao mesmo tempo, numa escala urbana, e não de grupos ou de tribos ou de interesses pessoais. Vendo sobre esse pano de fundo, a frase é perfeita, e merece ser aprofundada.

Num site onde se propõe que o design merece ser pensado sob as lentes da simplicidade e da inovação, permanecer longe de discussão do urbano e da cidade (e dos fluxos de massas, do design do dia a dia que é o ônibus e o metrô, etc) seria uma grande incoerência. Seria o requinte do minimalismo aplicado a projetos ultrapassados, que ainda colocam o objeto como foco do projeto. E é esse o grande ponto: mudar o foco do projeto. Sair do objeto.

O primeiro argumento que justifica tal ponto vem da própria Sophia Telles. O modo de projeto focado no objeto é uma tradição que vem do início do modernismo. O design moderno propunha uma remodelagem do modo de ver o mundo por parte do usuário. Era sair da imprecisão artesanal pré-moderna para o racionalismo completo baseado no modelo industrial, e trazer esse modo de ver também para o usuário, de preferência de maneira massiva. Por isso o desenho da cadeira era um problema, ou da mesa, ou qualquer coisa. Pois o desenho tinha que transmitir esse ideal racionalista e industrial.

Mas acontece que essa questão não é mais o problema. A revolução industrial está feita e absorvida. Existem questões melhores para serem pensadas. Mesmo no que concerne ao foco de projeto, passando do objeto ao espaço. Essa é uma diferenciação que filosoficamente se sustenta no seguinte ponto: objeto é aquilo que concentra nosso olhar nele, e o redor é abstraído. Se pensamos num carro, por exemplo, tendemos a focar nele, esquecendo-nos de que ele estará associado necessariamente a um entorno, algo que será seu fundo, que será o suporte para onde ele acontece. Já pensar o espaço é pensar nesse objeto levando-se em conta o lugar onde será inserido, tendo sempre uma observação global.

Cynthia Malaguti confirma esse ponto, pois acredita que o designer permanece acostumado a pensar no pontual, e um pensamento sistêmico é necessário para a reavaliação do modo de projeto do designer, em especial para um apontamento à sustentabilidade. O designer deve perder sua atitude autoritária de controle do gosto e da forma. Deixar de focar nas coisas para pensar em ações, orientando-se para resultados. Nem que a solução para o problema proposto ao designer não seja um objeto ou peça gráfica, mas apenas uma reeducação social, o que a Cynthia chamou de “inovação social” (tentar ajudar numa mudança de comportamento de um grupo de pessoas que geraria uma nova solução a determinado problema).

Há um ponto essencial aqui, que acaba transparecendo na fala de ambas: a interdisciplinaridade. O pensamento sistêmico que nos fala Cynthia parte dessa interdisciplinaridade, que, partindo da observação do usuário, entende seu modo de agir, e procura soluções em todas as disciplinas que puderem colaborar para o melhor resultado. E para que essa interdisciplinaridade seja real e efetiva, Sophia nos diz que devemos fazer as perguntas certas. As perguntas que trazem as respostas de diversas disciplinas, que não fecham o discurso sob o ponto de vista do designer, ou do historiador, ou do engenheiro, ou o quem quer que seja.

Vejo um pequeno problema, no entanto, que poderia gerar um mal entendimento do que foi dito. Embora se avalie que o foco no objeto não é o mais importante, não necessariamente devemos parar de projetar objetos. Isso seria um engano. O que se propõe é que o projeto e a escolha do que projetar parta de necessidades reais, e que seja sustentado por escolhas éticas que abarcam tanto o usuário quanto a realidade que vivemos. A inovação é algo que chega a justificar isso, já que com novas pesquisas tecnológicas e ergonômicas  ou pesquisas de diversas naturezas, aparecem novas respostas a problemas antigos. Não é uma nova solução, mas um aprimoramento do que já foi feito. O grande problema é focar simplesmente no objeto, esquecendo do restante, esquecendo de pensar no conjunto que é a realidade, e é aqui, imagino, que tanto a Sophia quanto a Cyntia tentam nos chamar a atenção.

Para finalizar, resumo tudo isso em duas falas delas que concentram todos os conceitos aqui apresentados. Sophia nos diz que a mobília não é mais o problema, mas a cidade. Nesse momento, “a casa é a cidade”, já que a solução de diversos problemas não se encontram mais no móvel, mas no urbano. Já Cyntia coloca que o problema atual do design é sua atitude autoritária, e que devemos “projetar com, e não projetar para” o usuário. Embora aparente aqui uma pequena diferença de foco (cidade x usuário), eu acredito que é apenas aparente, pois, como disse a própria Sophia na sua primeira frase na palestra, “não existe cidade sem homens”, e mudar o paradigma de projeto do pontual para o sistêmico e real problema é, talvez, a solução tanto para o caos urbano quanto para a relação do homem com os outros.

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Eduardo Camillo K. Ferreira
Estudante do curso de graduação em Design na FAU USP, sócio fundador da Mínimo Design, e professor na Etec Guaracy Silveira no curso de Design de Móveis. Postará quinzenalmente no blog Simples sobre assuntos relacionados a teoria de base do Design. Escreve também no Digerindo Arte.